(thriller)
2
Joel Talina saiu de casa, puxando a pala do boné para os olhos e começou a percorrer o caminho mal alcatroado que levava à serra. Era mortiça a luz dos poucos candeeiros públicos, incapaz de atravessar o nevoeiro.
Naquela que fora a velha e remediada Cova, todas as casas eram vivendas modestas e antigas, com os seus telhados escurecidos pelo musgo, as paredes onde faltava reboco. Tinham um alpendrezinho por cima da porta da frente e à frente um pequeno espaço em terra, aproveitado para jardim ou horta, esta adubada com o estrume das galinhas, guardadas num capoeiro nas traseiras.
Eram propriedade daqueles que trabalhavam nos estaleiros ou nos serviços camarários mais modestos, para onde, em tempos não muito recuados, se deslocavam de bicicleta por atalhos impensáveis. Verdadeiramente tudo isso acabara. Já ninguém se deslocava para a cidade de bicicleta, eram quase todos velhos, odiando-se mutuamente, alimentando ódios ancestrais.
Ultrapassado o casario, Joel Talina virou à esquerda e entrou no caminho de pé posto. A partir dela não havia iluminação pública mas isso não era problema já que ele conhecia o trajecto de olhos fechados, de olhos fechados e olfacto atento. Os odore que se soltavam de cada pedaço de terra eram-lhe familiares, reconhecia-os pelo cheiro. Mais à frente, à beira da propriedade do ti Larica, chegou-lhe à narinas o odor doce das uvas morangas - proibidas por lei - que ele ainda mantinha para honrar a memória do pai. Fora este que as plantara . Colhia poucas, o resto sobrante ficava para os melros que também são filhos da natureza.
Em puto, ele e mais alguns iam rouba-las embora soubessem que o tio Larica tinha-as à disposição para quem as viesse pedir. bastava pedir. Mas o roubo dava outro sainete ao golpe. A não ser assim é como ir ao supermercado. Eles eram muito mauzinhos, eram. Roubavam as uvas ao ti Larica, a galinha mais gorda. Até o porco, seduzido por cenouras, foi levado uma vez até à estrada que dava para a cidade. Nunca se tinha vusto nada assim, um porco a deambular pelo alcatrão, com todos os vagares. Eles eram mauzinhos, eram.
Começou a cair uma chuva miudinha, ajustou o boné. Prosseguiu em frente, já a subir, as botas militares que de vez em quando resvalavam na lama. Apesar da escuridão da madrugada, caminhava com passada firme mas cautelosa, meio curvado. O camuflado ficava-lhe apertado, o cinto preso no último furo, porque engordara dez quilos, vítima dos cozinhados da mãe que o tratava como se ele fosse o arquiduque de Andorra. O camuflado, com as cores de areia do deserto, trouxera-o da guerra no Afeganistão onde, segundo ele - e não se cansava de o repetir - vira a pior merda que se pode imaginar.
Deteve-se. Sentiu-se mais perto daquele carro trabalhar. Mas que porra é esta? pensou consigo. Cheira-me a esturro.
Em puto, ele e mais alguns iam rouba-las embora soubessem que o tio Larica tinha-as à disposição para quem as viesse pedir. bastava pedir. Mas o roubo dava outro sainete ao golpe. A não ser assim é como ir ao supermercado. Eles eram muito mauzinhos, eram. Roubavam as uvas ao ti Larica, a galinha mais gorda. Até o porco, seduzido por cenouras, foi levado uma vez até à estrada que dava para a cidade. Nunca se tinha vusto nada assim, um porco a deambular pelo alcatrão, com todos os vagares. Eles eram mauzinhos, eram.
Começou a cair uma chuva miudinha, ajustou o boné. Prosseguiu em frente, já a subir, as botas militares que de vez em quando resvalavam na lama. Apesar da escuridão da madrugada, caminhava com passada firme mas cautelosa, meio curvado. O camuflado ficava-lhe apertado, o cinto preso no último furo, porque engordara dez quilos, vítima dos cozinhados da mãe que o tratava como se ele fosse o arquiduque de Andorra. O camuflado, com as cores de areia do deserto, trouxera-o da guerra no Afeganistão onde, segundo ele - e não se cansava de o repetir - vira a pior merda que se pode imaginar.
Deteve-se. Sentiu-se mais perto daquele carro trabalhar. Mas que porra é esta? pensou consigo. Cheira-me a esturro.