terça-feira, 23 de outubro de 2018

2. OS CRMES DE VIANA DO CASTELO

                                O ESTRANHO CASO DOS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

                                                                           (thriller)



2

          Joel Talina saiu de casa, puxando a pala do boné para os olhos e começou a percorrer o caminho mal alcatroado que levava à serra. Era mortiça a luz dos poucos candeeiros públicos, incapaz de atravessar o nevoeiro.
         Naquela que fora a velha e remediada Cova, todas as casas eram vivendas modestas e antigas, com os seus telhados escurecidos pelo musgo, as paredes onde faltava reboco. Tinham um alpendrezinho por cima da porta da frente e à frente um pequeno espaço em terra, aproveitado  para jardim ou horta, esta adubada com o estrume das galinhas, guardadas num capoeiro nas traseiras.
         Eram propriedade daqueles que trabalhavam nos estaleiros ou nos serviços camarários mais modestos, para onde, em tempos não muito recuados, se deslocavam de bicicleta por atalhos impensáveis. Verdadeiramente tudo isso acabara. Já ninguém se deslocava para a cidade de bicicleta, eram quase todos velhos, odiando-se mutuamente, alimentando ódios ancestrais.
          Ultrapassado o casario, Joel Talina virou à esquerda e entrou no caminho de pé posto. A partir dela não havia iluminação pública mas isso não era problema já que ele conhecia o trajecto de olhos fechados, de olhos fechados e olfacto atento. Os odore que se soltavam de cada pedaço de terra eram-lhe familiares, reconhecia-os pelo cheiro. Mais à frente, à beira da propriedade do ti Larica, chegou-lhe à narinas o odor doce das uvas morangas - proibidas por lei - que  ele ainda mantinha para honrar a memória do pai. Fora este que as plantara . Colhia poucas, o resto sobrante ficava para os melros que também são filhos da natureza.
          Em puto, ele e mais alguns iam rouba-las  embora soubessem que o tio Larica tinha-as à disposição para quem as viesse pedir. bastava pedir. Mas o roubo dava outro sainete ao golpe. A não ser assim é como ir ao supermercado. Eles eram muito mauzinhos, eram. Roubavam as  uvas ao ti Larica, a galinha mais gorda. Até o porco, seduzido por cenouras, foi levado uma vez até à estrada que dava para a cidade. Nunca se tinha vusto  nada assim, um porco a deambular pelo alcatrão, com todos os vagares. Eles eram mauzinhos, eram.
          Começou a cair uma chuva miudinha, ajustou o boné. Prosseguiu  em frente, já a subir, as botas militares que de vez em quando resvalavam na lama. Apesar da escuridão da madrugada, caminhava com passada firme mas cautelosa, meio curvado. O camuflado ficava-lhe apertado, o cinto preso no último furo, porque engordara dez quilos, vítima dos cozinhados da mãe que o tratava como se ele fosse o arquiduque de Andorra. O camuflado, com as cores de areia do deserto, trouxera-o da guerra no Afeganistão onde, segundo ele - e não se cansava de o repetir - vira a pior merda que se pode imaginar.
        Deteve-se. Sentiu-se mais perto daquele carro  trabalhar.  Mas que porra é esta? pensou consigo. Cheira-me a esturro. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

1 - OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

               

                   
                  O ESTRANHO CASO DOS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

                                                   (thriller/policial)


             1.
            No caminho de pé posto que saía da Cova da Meadela até às ruínas do mosteiro de S. Francisco do Monte, Joel Talina estacou a marcha. Chegou-lhe aos ouvidos o trabalhar enfadonho e monótono de um carro, lá para cima, para a serra. O som estava longe, pareceu-lhe. Mas o silêncio espesso da noite e a brisa que soprava do lado do mar, traziam-no até ele como se estivesse ali, a poucas dezenas de passos. A neblina funcionava como um caixa de ressonância, uma neblina peganhenta, que se introduzia na roupa e tocava os ossos.
            11 de Outubro de 2016, 6h30 de uma madrugada sombria. O Outono começara com chuvadas violentas, enxurradas, deslizamento de terra e muitos alertas da Protecção Civil. Um motor a trabalhar não seria nada de especial se não fossem as horas que eram e donde pareciam vir. Uma alvorada de terça-feira triste e sombria, e uma névoa cega a assentar a envolver uma cidade plácida do litoral norte: Viana do Castelo.
            Era uma noite fechada, mas Joel Talina conhecia o trilho escorregadio que percorria há muitos anos. Tinha chegado a casa há pouco menos de meia hora, depois de dois turnos consecutivos como maqueiro no hospital público, prolongados por mais cinco horas porque o colega Cabanelas, um baldas da pior espécie, não o viera render no turno.
           - Podias-me te avisado, Cabanelas - rosnou Talina com vontade de lhe ir às trombas.
           - Eu tinha lá cabeça, man. - retorquiu o Cabanelas, atento a que não viesse por ali um empurrão. -Eu estava a desfazer-me em merda!
              -Não fizeste a tropa, ora não? Tirava-te a tosse e fazia de ti o que não és. Um homenzinho.
              Assim que chegou a casa comeu uma bucha, bebeu umas goladas boas de café a que juntou umas gotas de aguardente velha. «É prá sossega», pensou com os seus botões. Despiu-se da roupa de trabalho, e vestiu o camuflado que trouxera da missão do Afeganistão, calçou as botas militares, certificou-se que tinha o telemóvel consigo. Foi ao interior da casa, direito  a um armário. Do fundo da gaveta retirou um pano com um objecto embrulhado. Era uma réplica da AK47. a sua arma de pressão de ar, quitada, com chumbos 4.5. Ia caçar coelhos, pois, à revelia da lei.
            - Tem cuidado, filho -recomendou a mãe ensonada, uma velha que a viuvez precoce e inadmissível à conta do longínquo suicídio do marido fizera azeda e descrente em Deus, um Deus que ela qualificava de analfabruto.
              Como o filho tinha chegado fora de horas do que era habitual, perguntou-lhe:
               - Raios! Porque vieste tão tarde?
               - Durma. Lá para a hora do almoço já cá estou.
               - Foi outra vez esse Cabanelas?
               - Foi.
               - Ah, carago! Se fosse comigo já o tinha fodido todo!