O ESTRANHO CASO DOS CRIMES DE VIANA DO CASTELO
(thriller/policial)
1.
No caminho de pé posto que saía da Cova da Meadela até às ruínas do mosteiro de S. Francisco do Monte, Joel Talina estacou a marcha. Chegou-lhe aos ouvidos o trabalhar enfadonho e monótono de um carro, lá para cima, para a serra. O som estava longe, pareceu-lhe. Mas o silêncio espesso da noite e a brisa que soprava do lado do mar, traziam-no até ele como se estivesse ali, a poucas dezenas de passos. A neblina funcionava como um caixa de ressonância, uma neblina peganhenta, que se introduzia na roupa e tocava os ossos.
11 de Outubro de 2016, 6h30 de uma madrugada sombria. O Outono começara com chuvadas violentas, enxurradas, deslizamento de terra e muitos alertas da Protecção Civil. Um motor a trabalhar não seria nada de especial se não fossem as horas que eram e donde pareciam vir. Uma alvorada de terça-feira triste e sombria, e uma névoa cega a assentar a envolver uma cidade plácida do litoral norte: Viana do Castelo.
Era uma noite fechada, mas Joel Talina conhecia o trilho escorregadio que percorria há muitos anos. Tinha chegado a casa há pouco menos de meia hora, depois de dois turnos consecutivos como maqueiro no hospital público, prolongados por mais cinco horas porque o colega Cabanelas, um baldas da pior espécie, não o viera render no turno.
- Podias-me te avisado, Cabanelas - rosnou Talina com vontade de lhe ir às trombas.
- Eu tinha lá cabeça, man. - retorquiu o Cabanelas, atento a que não viesse por ali um empurrão. -Eu estava a desfazer-me em merda!
-Não fizeste a tropa, ora não? Tirava-te a tosse e fazia de ti o que não és. Um homenzinho.
Assim que chegou a casa comeu uma bucha, bebeu umas goladas boas de café a que juntou umas gotas de aguardente velha. «É prá sossega», pensou com os seus botões. Despiu-se da roupa de trabalho, e vestiu o camuflado que trouxera da missão do Afeganistão, calçou as botas militares, certificou-se que tinha o telemóvel consigo. Foi ao interior da casa, direito a um armário. Do fundo da gaveta retirou um pano com um objecto embrulhado. Era uma réplica da AK47. a sua arma de pressão de ar, quitada, com chumbos 4.5. Ia caçar coelhos, pois, à revelia da lei.
- Tem cuidado, filho -recomendou a mãe ensonada, uma velha que a viuvez precoce e inadmissível à conta do longínquo suicídio do marido fizera azeda e descrente em Deus, um Deus que ela qualificava de analfabruto.
Como o filho tinha chegado fora de horas do que era habitual, perguntou-lhe:
- Raios! Porque vieste tão tarde?
- Durma. Lá para a hora do almoço já cá estou.
- Foi outra vez esse Cabanelas?
- Foi.
- Ah, carago! Se fosse comigo já o tinha fodido todo!
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