sábado, 4 de abril de 2020

11. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

           Subitamente, com um relâmpago de júbilo, o inspector Cardeira lembrou-se que tinha de marcar encontro com Paloma Gutierrez, a universitária mais bela de todas as universitárias do mundo e, digamos dos arredores planetários. Perdera-se  de amores fulgurantes por ela há três anos, numa data que comemoravam com presentes e juras eternas de uma paixão m chamas: 13 de Outubro de 2013. E se houvesse disponibilidade da parte dele, a data era comemorada num motel em com muito sexo inspirado no Kamasutra. Impedido por uma investigação fora de Braga, há uma semana que não desfrutava da amantíssima Paloma. Esta ressaca de amor provocava-lhe delírios de angústia.
            Os toques insistentes no seu smartphone, deixado a carregar fora da porta do coté onde dormia não eram dela porque tinha selecionado para Paloma o Only You, uma canção romântica dos tempos da Maria Cachucha mas que para ele representava a alegoria dos seus sentimentos.
          Já não se tratava de uma - mais uma - aventura com a duração de um gemido de amor, ou mais um corpo para fazer  refulgir e reforçar a sua auto estima de macho impulsivo. Transtornado de uma paixão tão típica numa idade de amadurecimento, desejava que Paloma fosse a sua companheira até ao final da vida, apesar da diferença de idades. Nem um nem outro pensavam nisso.
         Animado pelo pensamento na sua incandescente paixão, Cardeira aprestou-se a entrar no mundo real. A voz que soara para lá da porta do coté, capaz de lhe virar os fígados, era a de Josefina José, esposa que ele não queria ver nem pintada com as cores do paraíso. Vinte anos de casamento, uma relação que se foi degradando imparavelmente. Ela porque vivia  para o trabalho como gerente de uma agência bancária, uma obsessão laboral sem fim como se temesse o monstro da inactividade. Ele porque jamais resistira aos encantos de uma bela fêmea. Conhecera algumas, fornicara-as com honestidade e fervor, mas não conseguia satisfazer o seu desejo de posse e novidade. Voltava-se para outras, de aletas atiçadas pelas feromonas femininas, resfolgando de excitação. Sem um vislumbre de remorso.
        

quinta-feira, 2 de abril de 2020

10 OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

10.
        
    O inspector Mariano Cardeira dormia  numa cama atamancada do IKEA, um sono incómodo para um canastro como o seu: 1.90 de altura e 120 quilos de peso. Dormia mal e porcamente, resfolgando uma cólera surda, traduzida no desabafo incongruente:
         «Cadela de sorte.»
        O espaço emanava um forte cheiro a lixivia. Num pequeno armário, logo à entrada, estavam vários produtos de limpeza, panos do pó. Ao lado, no chão, um balde, uma vassoura e um zarapulho ainda húmido. Ainda coisas várias que foram dos dois filhos: patins, jogos, dois skates, e outro material que se guarda como relíquia de um tempo feliz que não se quer esquecer.
          Até ter as crispações reguladas com  Josefina José num divórcio de comum acordo, ele vivendo sob o mesmo tecto, aprontando-se para arrendar um T1 perto do novo estádio do Braga: a Pederneira. Até ao momento, ambos comportavam-se como desconhecidos, trocando falas raras, absolutamente necessárias, e que muitas vezes não passavam de resmungos irados. Já tinham ultrapassado a fase de gritos, ralhos e avisos envenenados com que apagaram as estrelas do céu conjugal.
        Os batimentos secos na porta do coté tinham-no acordado e não conseguia voltar a cair no sono embora quisesse. O seu corpo  alentado de urso, as gâmbias descomunais e uns pés tamanho 49 mal cabiam na cama, queriam continuar  naquele atoleiro de entorpecida serenidade. Voltaram a bater na porta, desta vez chamando-o:
       - Cardeira! -A irritação da toada era perceptível mesmo para quem tinha as pálpebras carregadas de sono. -Tens aqui uma chamada do Comando da Judiciária.
         A voz áspera de Josefina José - há quanto tempo não trocavam uma palavras a que se pudesse chamar palavra? - não precisava de dizer de quem era a chamada. Ele próprio acabara de o ouvir naquele momento. Para uma maior facilidade e segurança na comunicação, ele tinha para cada contacto um toque específico: o do Comando da Judiciária, do inspector chefe do Departamento de Homicídios, dos seus colegas mais próximos. Ainda o da estúpida esposa, que ele não apagara e, a dizer a verdade, nem sabia porquê. Finalmente, o da tão imprevisível como as tempestades do deserto: o da jovem estagiária Renascida Ximenes, uma maçarica meio destrambelhada do miolo com a qual era preciso ter uma paciência de santo, a quem ele próprio já ameaçara por várias vezes correr com ela aos pontapés e negar-lhe o aval à sua entrada definitiva na corporação.