quinta-feira, 2 de abril de 2020

10 OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

10.
        
    O inspector Mariano Cardeira dormia  numa cama atamancada do IKEA, um sono incómodo para um canastro como o seu: 1.90 de altura e 120 quilos de peso. Dormia mal e porcamente, resfolgando uma cólera surda, traduzida no desabafo incongruente:
         «Cadela de sorte.»
        O espaço emanava um forte cheiro a lixivia. Num pequeno armário, logo à entrada, estavam vários produtos de limpeza, panos do pó. Ao lado, no chão, um balde, uma vassoura e um zarapulho ainda húmido. Ainda coisas várias que foram dos dois filhos: patins, jogos, dois skates, e outro material que se guarda como relíquia de um tempo feliz que não se quer esquecer.
          Até ter as crispações reguladas com  Josefina José num divórcio de comum acordo, ele vivendo sob o mesmo tecto, aprontando-se para arrendar um T1 perto do novo estádio do Braga: a Pederneira. Até ao momento, ambos comportavam-se como desconhecidos, trocando falas raras, absolutamente necessárias, e que muitas vezes não passavam de resmungos irados. Já tinham ultrapassado a fase de gritos, ralhos e avisos envenenados com que apagaram as estrelas do céu conjugal.
        Os batimentos secos na porta do coté tinham-no acordado e não conseguia voltar a cair no sono embora quisesse. O seu corpo  alentado de urso, as gâmbias descomunais e uns pés tamanho 49 mal cabiam na cama, queriam continuar  naquele atoleiro de entorpecida serenidade. Voltaram a bater na porta, desta vez chamando-o:
       - Cardeira! -A irritação da toada era perceptível mesmo para quem tinha as pálpebras carregadas de sono. -Tens aqui uma chamada do Comando da Judiciária.
         A voz áspera de Josefina José - há quanto tempo não trocavam uma palavras a que se pudesse chamar palavra? - não precisava de dizer de quem era a chamada. Ele próprio acabara de o ouvir naquele momento. Para uma maior facilidade e segurança na comunicação, ele tinha para cada contacto um toque específico: o do Comando da Judiciária, do inspector chefe do Departamento de Homicídios, dos seus colegas mais próximos. Ainda o da estúpida esposa, que ele não apagara e, a dizer a verdade, nem sabia porquê. Finalmente, o da tão imprevisível como as tempestades do deserto: o da jovem estagiária Renascida Ximenes, uma maçarica meio destrambelhada do miolo com a qual era preciso ter uma paciência de santo, a quem ele próprio já ameaçara por várias vezes correr com ela aos pontapés e negar-lhe o aval à sua entrada definitiva na corporação.





Sem comentários:

Enviar um comentário