domingo, 14 de junho de 2020

Uma inspectora meio esgroviada

14.

       Ouviu a porta da rua a bater, Josefina José lá ia embora ao encontro do seu N'Zinga. Que porra de nome! Até parece coisa de pretos, pensou.
       O toque no telemóvel que, de novo, se fez ouvir, já não era o tambor fúnebre que identificava chamada da Central, mas um reggae  apelador de descontraída felicidade: Don't worry, be happy.  Escolhera-o para identificar Renascida Ximenes, a meio tresloucada inspectora-estagiária, e nem sabia o porquê da escolha. Ou talvez soubesse.
     Ao ser-lhe dito, há uns meses que aquela estagiária iria fazer o tirocínio com ele, não teve dúvidas que era mais uma manobra deles para o lixarem, sabendo eles, de ginjeira, que ele não resistia a mulheres  Assim sendo, eles não duvidavam que ele, mais cedo ou mais tarde, havia de se envolver com a estagiária. Eles queriam que a palha chegasse ao fogo dele.
         No dia em que ela veio apresentar-se no Comando em Braga, sendo informada que o seu orientador seria o inspector Mariano Cardeira, não perdeu um segundo em procurá-lo no gabinete. Quando ela entrou, com um sorriso rasgado, Mariano Cardeira levantou os olhos do relatório que estava a escrever ao computador, engoliu em seco: era uma jovem com um tom de pele achocolatado, umas feições correctíssimas e um cabelo curto, de pontas esticadas e aloiradas. As calças pretas, muito justas, terminavam nuns sapatões de cabedal, atados por cordões amarelos.

         O trabalho em conjunto, de meses, veio demonstrar que ela tinha  faro e conhecimentos sólidos de investigação policial. Todavia, muitas vezes ele teve que a travar. Era manienta, impulsiva  como uma bicha-de-rabiar. E mais teimosa que um burro velho, com ataques súbitos de mau-humor.
      «Graxa da minha parte não conte, colega» avisou ela na primeira vez em que saíram para uma investigação.
        Sem quê nem para quê. muitas eram as vezes em que se punha a trautear, baixinho, a canção "O Vitinho" que passou uns anos antes na RTP para mandar os putos para a cama. Mariano Cardeira interrogava-se muitas vezes como é que ela tinha passado nos testes psicotécnicos e feito o curso na Escola Superior da PSP, sem que a tivessem chumbado.
     Don't worry be happy soou-lhe de novo, a avisá-lo que tinha a estagiária tresloucada à perna. A rapariga que lhe queria? É certo que tinham pouco pessoal na Brigada de Homicídios, alguns dos seus colegas tinham sido transferidos, provisoriamente,  para o Porto, onde o crime, o ajuste de contas entre grupos rivais, os carros incendiados, tudo tinha aumentado de uma forma alarmante. E a comunicação social a fazer troar os tambores da tragédia.
        E lá soou de novo o cabrão do reggae! Essa estúpida da Renascida Ximenes não sabia que era o seu dia de folga? Não sabia ou não lhe disseram?

       
       

     

sexta-feira, 12 de junho de 2020

POR QUE TELEFONAM AO INSPECTOR?

13
         
       Voltou atrás, foi ao monte de roupa suja que ia pôr a lavar, retirou o lusão fedorento, passou-o pelos ombros. Nu, atravessou  o corredor e enfiou-se  na faraónica casa de banho, paredes forradas a mármore do Alentejo, o chão em laje preta, de superfície irregular. Tremendo de frio, as queixadas como castanholas, enfiou-se sob o chuveiro jorrando água quentíssima, ao mesmo tempo despejando a bexiga.
    Finalmente o smartphone tinha fechado a cloaca chamativa. Até o toque que ele tinha escolhido para identificar a Central - um batimento fúnebre de tambor que subia de tom até se tornar insuportável -, fora motivo para mais uma discussão com Josefina José, isto em tempos idos, ainda quando eles falavam palavras que pouco iam para além da monotonia rotineira.
      Tinha que atender o raio do aparelho, não lhe podia fugir. Mariano Cardeira pertencia à Brigada de Homicídios da Judiciária de Braga e se insistiam era porque havia merda da grossa. Mas se era o seu dia de folga por que lhe vinham chatear a mona? Vinham, vinham porque a intenção deles era lixá-lo, moer-lhe a paciência e impedi-lo  de poder desfrutar do dia  com Paloma - uma paixão que o trazia num tapete voador.
       Enquanto se ensaboava, recordou -aliás nunca mais se esquecera, como se sofresse de uma úlcera irremediável -, que há uns anos, mais exactamente em 2009, quiseram derrotá-lo com um processo disciplinar e que essa nódoa manchara o seu currículo. Por isso, era importante obedecer ao código de ética da corporação, baixar a crista. Tinha, então, que atender, mostrar-se cordato, obediente. No entanto, no fundo da alma, persistia um sedimento contra o sacanão do colega Herculano Negreiro, contra outro sacanão, o seu superior Simão Magro, um santanário que não lhe perdoava ele ser um irreprimível conquistador, mas também - e aqui é batia o ponto -, ter estado incriminado no tráfico de mulheres da Ucrânia.
      A sua raiva estendia-se a toda a Judite. Eles todos, mas eles todos, tinham-se aliado para o tramar.
      Retirou a espuma abundante do corpo, secou-se com um lençol, fez a barba. Foi quando ouviu Josefina José - que ele pensava já ter saído - falar ao telemóvel. Apurou o ouvido para lhe ouvir, um pouco enciumado,  uma fala de agradecimento e de muita cortesia.
          - Grata, N'zinga. A boleia dá-me jeito… sim, sim, estou pronta. Desço já.
        Quem raio era esse N'zinga? E que porra de nome era esse? E o tom dela, tão amistoso, ele quase diria, enamorado?
         

quinta-feira, 11 de junho de 2020

12 Os crimes de Viana do Castelo

12

           O inspector Mariano Cardeira submergia-se cada vez mais num cansaço que pouco ou nada tinha a ver com a fadiga física. Era algo de psicológico, íntimo e profundo, obrigando-o a viver com um pesado ressabiamento em cima dos ombros. Talvez a saturação por trabalhar numa corporação que não lhe reconhecia os méritos, a dedicação, os sacrifícios. Talvez ainda uma amargura ácida, talvez. Mais que certa era a sensação de que todos faziam o que podiam para o entalar com a dureza implacável de um torniquete. Eles. Os outros. A corporação.  O sistema. O vento que sopra da meseta ibérica e afoga a cidade de Braga.

           A fotografia denunciadora da sua relação com Paloma, colocada no para-brisas do carro da ainda esposa Josefina José, fora mais uma manobra de achincalhamento de um deles. Eis a maquinação, a intriga, a teia da conspiração, envolvendo-o com a sua baba pegajosa, Atormentado por esta torrente, sentia tudo isso em cada dia, em cada colega, em cada superior. Apetecia-lhe guinchar  como um animal selvagem apanhado numa armadilha por onde passavam os alísios da morte.
     Por fim, lá se dispôs a atender os atropelos sonoros do  telemóvel, vencendo o seu estado de serradura. Dormira vestido após a chegada de Vila Nova de Cerveira - um caso de homicídio disfarçado de suicídio -  já a meio da madrugada. Apenas tirara os sapatos e o coldre com a Glock. As meias soltavam um cheiro requentado a chulé. Doía-lhe o joelho direito à conta da artrose debilitante que se carregava de negro de dia para dia. E se as dores eram colmatadas por anti-inflamatórios do refrigério, o estômago dera em recalcitrar, exarando as suas reclamações no livro da sensibilidade.
        Levantou-se da cama estreita, com esforço, tossiu largamente. Despiu-se todo, atirando para o chão as peças de roupa fedorentas. Tremendo de frio, porque o quartinho não tinha qualquer aquecimento, preparou-se para se esgueirar para a casa de banho. Ouviu de novo o chamamento do smartphone vindo do lado de fora, junto à porta, onde o deixara a carregar. O que lhe queriam da Central? Algum inspector superior, por certo, a chatear-lhe a mona.  Estava de piquete? Não. Tinha alguma investigação marcada para aquele dia? Não. Um caso aberto, ainda nas suas mãos? Não. Era o seu dia de folga, foda-se! Tivesse havido um homicídio nessa noite, uma cabazada de homicídios, que o seu dia de folga nem o Director Geral da Judiciária lho cortava. Ia passá-lo com quem? Com Paloma, obviamente.
         - Bardamerda! Podem esperar até o mundo deixar de ser mundo - resmungou.
          Abriu a porta, um frio ainda maior apanhou-o de chofre, fazendo-o tremelicar. A sua futura ex , essa cabra da Josefina José, deixara as janelas semiabertas, numa estratégia para o humilhar porque uma corrente de ar glacial enregelava o apartamento.
         - Puta! - rosnou, fervendo de raiva.