O inspector Mariano Cardeira submergia-se cada vez mais num cansaço que pouco ou nada tinha a ver com a fadiga física. Era algo de psicológico, íntimo e profundo, obrigando-o a viver com um pesado ressabiamento em cima dos ombros. Talvez a saturação por trabalhar numa corporação que não lhe reconhecia os méritos, a dedicação, os sacrifícios. Talvez ainda uma amargura ácida, talvez. Mais que certa era a sensação de que todos faziam o que podiam para o entalar com a dureza implacável de um torniquete. Eles. Os outros. A corporação. O sistema. O vento que sopra da meseta ibérica e afoga a cidade de Braga.
A fotografia denunciadora da sua relação com Paloma, colocada no para-brisas do carro da ainda esposa Josefina José, fora mais uma manobra de achincalhamento de um deles. Eis a maquinação, a intriga, a teia da conspiração, envolvendo-o com a sua baba pegajosa, Atormentado por esta torrente, sentia tudo isso em cada dia, em cada colega, em cada superior. Apetecia-lhe guinchar como um animal selvagem apanhado numa armadilha por onde passavam os alísios da morte.
Por fim, lá se dispôs a atender os atropelos sonoros do telemóvel, vencendo o seu estado de serradura. Dormira vestido após a chegada de Vila Nova de Cerveira - um caso de homicídio disfarçado de suicídio - já a meio da madrugada. Apenas tirara os sapatos e o coldre com a Glock. As meias soltavam um cheiro requentado a chulé. Doía-lhe o joelho direito à conta da artrose debilitante que se carregava de negro de dia para dia. E se as dores eram colmatadas por anti-inflamatórios do refrigério, o estômago dera em recalcitrar, exarando as suas reclamações no livro da sensibilidade.
Levantou-se da cama estreita, com esforço, tossiu largamente. Despiu-se todo, atirando para o chão as peças de roupa fedorentas. Tremendo de frio, porque o quartinho não tinha qualquer aquecimento, preparou-se para se esgueirar para a casa de banho. Ouviu de novo o chamamento do smartphone vindo do lado de fora, junto à porta, onde o deixara a carregar. O que lhe queriam da Central? Algum inspector superior, por certo, a chatear-lhe a mona. Estava de piquete? Não. Tinha alguma investigação marcada para aquele dia? Não. Um caso aberto, ainda nas suas mãos? Não. Era o seu dia de folga, foda-se! Tivesse havido um homicídio nessa noite, uma cabazada de homicídios, que o seu dia de folga nem o Director Geral da Judiciária lho cortava. Ia passá-lo com quem? Com Paloma, obviamente.
- Bardamerda! Podem esperar até o mundo deixar de ser mundo - resmungou.
Abriu a porta, um frio ainda maior apanhou-o de chofre, fazendo-o tremelicar. A sua futura ex , essa cabra da Josefina José, deixara as janelas semiabertas, numa estratégia para o humilhar porque uma corrente de ar glacial enregelava o apartamento.
- Puta! - rosnou, fervendo de raiva.
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