Voltou atrás, foi ao monte de roupa suja que ia pôr a lavar, retirou o lusão fedorento, passou-o pelos ombros. Nu, atravessou o corredor e enfiou-se na faraónica casa de banho, paredes forradas a mármore do Alentejo, o chão em laje preta, de superfície irregular. Tremendo de frio, as queixadas como castanholas, enfiou-se sob o chuveiro jorrando água quentíssima, ao mesmo tempo despejando a bexiga.
Finalmente o smartphone tinha fechado a cloaca chamativa. Até o toque que ele tinha escolhido para identificar a Central - um batimento fúnebre de tambor que subia de tom até se tornar insuportável -, fora motivo para mais uma discussão com Josefina José, isto em tempos idos, ainda quando eles falavam palavras que pouco iam para além da monotonia rotineira.
Tinha que atender o raio do aparelho, não lhe podia fugir. Mariano Cardeira pertencia à Brigada de Homicídios da Judiciária de Braga e se insistiam era porque havia merda da grossa. Mas se era o seu dia de folga por que lhe vinham chatear a mona? Vinham, vinham porque a intenção deles era lixá-lo, moer-lhe a paciência e impedi-lo de poder desfrutar do dia com Paloma - uma paixão que o trazia num tapete voador.
Enquanto se ensaboava, recordou -aliás nunca mais se esquecera, como se sofresse de uma úlcera irremediável -, que há uns anos, mais exactamente em 2009, quiseram derrotá-lo com um processo disciplinar e que essa nódoa manchara o seu currículo. Por isso, era importante obedecer ao código de ética da corporação, baixar a crista. Tinha, então, que atender, mostrar-se cordato, obediente. No entanto, no fundo da alma, persistia um sedimento contra o sacanão do colega Herculano Negreiro, contra outro sacanão, o seu superior Simão Magro, um santanário que não lhe perdoava ele ser um irreprimível conquistador, mas também - e aqui é batia o ponto -, ter estado incriminado no tráfico de mulheres da Ucrânia.
A sua raiva estendia-se a toda a Judite. Eles todos, mas eles todos, tinham-se aliado para o tramar.
Retirou a espuma abundante do corpo, secou-se com um lençol, fez a barba. Foi quando ouviu Josefina José - que ele pensava já ter saído - falar ao telemóvel. Apurou o ouvido para lhe ouvir, um pouco enciumado, uma fala de agradecimento e de muita cortesia.
- Grata, N'zinga. A boleia dá-me jeito… sim, sim, estou pronta. Desço já.
Quem raio era esse N'zinga? E que porra de nome era esse? E o tom dela, tão amistoso, ele quase diria, enamorado?
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