terça-feira, 31 de março de 2020

9. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

9.        
           Na descida precipitada para a Cova da Meadela, Joel Talina não podia deixa de pensar no murmúrio que  saíra dos lábios de Ruy Alberto. Não se esquecia do que a mãe lhe dizia muitas vezes: «Filho, os mortos querem falar o que não disseram puderam em vida.» Aturdido, escorregando no chão enlameado, parou um breve instante para recuperar  fôlego, não tanto pela corrida mas mais pelo espanto amedrontado. O que queria dizer o amigo? O que me querias dizer, Ruy Alberto?


                         
                                               FALA DO MORTO DE MORTE MATADA


                             Espero com ansiedade que me levem daqui, desta nevoeirada                             que não faz nada bem   à saúde. Agora que   me                                          acho nesta condição de morto matado, desejo apenas falar,                               da maneira como fui morto, a cabeça desfeita por uma pancada.
                             A revelação da minha morte, a  maneira como  fui                                 assassinado há-de aqui ser   revelada.  Eu que  raramente saio de                       casa, que fujo aos   contactos   mundanos, quem   me  mandou                        vir para aqui, para as ruínas do   convento de   S. Francisco?       
                      Vim porque quis vir. Vim porque fui convidado. Vim porque senti                           o amor de  alguém. 
                         Não o devia ter feito.





                                                        INSPECTOR FERNANDO MARIANO CARDEIRA


               2016 - 11 de Outubro
               terça feira na cidade de Braga (8h05)

                   Aos ouvidos de Fernando Mariano Cadeira chegou um estrépito das profundas da tortura. Foi um batimento incómodo, seco, repetido na porta do compartimento de arrumos onde dormia,  coagido pelo feroz desentendimento conjugal.
        Braga amanhecia com um sol luminoso a garantir horas polongadas de luz e calor outonal. Estava frio, a temperatura ambiental era a de poucos graus positivos mas  luz solar era um incentivo para a vida. 
       Deitado na sua cama estreita, o inspector mascou a saliva, virou-se para o outro lado. Quase caíu. Retomou a posição fetal, encolhendo os pés enormes que lhe tinham ficado fora dos cobertores. Não se dava ao trabalho de usar lençóis. Limpou a baba que lhe escorrera da boca e passara ao queixo, onde despontava um barba cerrada. Esbracejou contra todo aquele que se encontrava sob a roda do Sol.
        - Filhos da puta. - Sem se dar ao trabalho de ver as horas, irritado com o novo batimento na porta, rezingou para si. - Cadela de sorte.
         O espaço apertado do quartinho feito degredo, era um compartimento de arrumos do amplo apartamento onde ele se vira obrigado a dormir. De laços definitivos cortados com a esposa, não lhe restava outra solução para não ter que passar, como um foragido na sua própria cidade, as noites num hotel remediado. O divórcio vinha por aí, era verdade, mas esse facto era o que menos o preocupava. Tinha o coração acalorado pela sua nova paixão que o trazia nas nuvens. 


         


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