terça-feira, 17 de março de 2020

3. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

3.


         Atraído pelo ronronar misterioso de um carro, vindo lá de cima, da serra, numa madrugada escura, Joel Talina fez um pequeno desvio como sempre, para evitar o carvalho do Enforcado, uma árvore carregada de anos, maldita, temível, que crescera encostada a uma formação granítica conhecida como a Barriga do Diabo. Não era para menos. na árvore enforcara-se o pai, por exemplo. Já passara por ali centenas de vezes, desde a sua infância silvestre, mas era incapaz de se habituar à sua  visão. Pior ainda era o que se dizia da puta da árvore: das suas raízes libertavam-se vozes sumidas, como que vindas do além túmulo.
          Joel Talina estava longe de ser corajoso. E se fazia aquela caminhada para caçar coelhos, sem medo e a horas carregadas de escuridão era porque estava no seu ambiente, sem nada de invulgar. Aparentemente.
       Mas o problema era o motor a trabalhar, soturno, sem uma pausa, a moer-lhe o juizinho. Era por isso um transtorno desagradável na segurança dos seus hábitos. Cagarolas, receou o imprevisível recordando o aviso da mãe, olha, filho, põe-te fino que acordaram os ventos da desgraça.
       A tiracolo, presa pela bandoleira, a sua pressão-de-ar quitada, quitada e de que maneira. Com a mãozinha encoberta de um armeiro, reforçara a câmara de explosão da arma, tornando uma espécie de AK47. Ganhou um alcance de tiro seguro de uns cem metros, com chumbos 4.5. Com esta jigajoga fraudulenta o chuço passara a ser perigoso, mortal. Anexara por cima da mira, uma lâmpada duas lâmpadas led  que lhe permitia, mesmo na escuridão mais densa, iluminar  espaço à sua frente onde devia estar o alvo e que o levava a desandar de casa tão - coelhos.
       Na caça, o chumbada apesar do calibre, da força do tiro e da sua pontaria, eram suficientes para abater o bicho logo ali, esperneando pela aflição da agonia. Até se esvair em sangue, os vasos do corpo secos como valas no Verão. Mas se o tiro apanha a vítima de raspão, desaparecia por entre ervas e silvas, a agonizar, sabia-se lá onde e por quanto tempo. Para essa eventualidade dispunha da colaboração do seu ajudante de campo, o general Cabul, um braco alemão de alto lá com ele, e que lhe custara os olhos da cara. Desta vez não levava o cão. Desde o dia anterior o perro estava a desfazer-se numa caganeira mortal, amodorrado, as orelhas murchas. O odor era o de uma morte anunciada.
       Foi avançando. Lá mais à frente tinha a bifurcação conhecida. Uma para a serra d'Arga. A outra para Santa Luzia. Tinha que se decidir. Ou sim ou sopas. O barulho do motor, incomodo, de mau agoiro é que intrigava o Joel Talina. E porque entretanto se encontrava mais perto, foi fácil perceber que o carro ronronante não devia estar muito longe das ruinas enigmáticas do convento de S. Francisco do Monte. Dizia-se que o local abandonado era habitado por ogres, cocas e bichos-papão. também ali se refugiavam casalinhos de jovens  apaixonados, amantes secretos, ou até um pessoal para tomas suicidas de crack. 
       O caminho para as ruínas não tinha passagem para mais lado nenhum. Quem lá ia, levava uma fisgada.


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