3.
Atraído pelo ronronar misterioso de um carro, vindo lá de cima, da serra, numa madrugada escura, Joel Talina fez um pequeno desvio como sempre, para evitar o carvalho do Enforcado, uma árvore carregada de anos, maldita, temível, que crescera encostada a uma formação granítica conhecida como a Barriga do Diabo. Não era para menos. na árvore enforcara-se o pai, por exemplo. Já passara por ali centenas de vezes, desde a sua infância silvestre, mas era incapaz de se habituar à sua visão. Pior ainda era o que se dizia da puta da árvore: das suas raízes libertavam-se vozes sumidas, como que vindas do além túmulo.
Joel Talina estava longe de ser corajoso. E se fazia aquela caminhada para caçar coelhos, sem medo e a horas carregadas de escuridão era porque estava no seu ambiente, sem nada de invulgar. Aparentemente.
Mas o problema era o motor a trabalhar, soturno, sem uma pausa, a moer-lhe o juizinho. Era por isso um transtorno desagradável na segurança dos seus hábitos. Cagarolas, receou o imprevisível recordando o aviso da mãe, olha, filho, põe-te fino que acordaram os ventos da desgraça.
A tiracolo, presa pela bandoleira, a sua pressão-de-ar quitada, quitada e de que maneira. Com a mãozinha encoberta de um armeiro, reforçara a câmara de explosão da arma, tornando uma espécie de AK47. Ganhou um alcance de tiro seguro de uns cem metros, com chumbos 4.5. Com esta jigajoga fraudulenta o chuço passara a ser perigoso, mortal. Anexara por cima da mira, uma lâmpada duas lâmpadas led que lhe permitia, mesmo na escuridão mais densa, iluminar espaço à sua frente onde devia estar o alvo e que o levava a desandar de casa tão - coelhos.
Na caça, o chumbada apesar do calibre, da força do tiro e da sua pontaria, eram suficientes para abater o bicho logo ali, esperneando pela aflição da agonia. Até se esvair em sangue, os vasos do corpo secos como valas no Verão. Mas se o tiro apanha a vítima de raspão, desaparecia por entre ervas e silvas, a agonizar, sabia-se lá onde e por quanto tempo. Para essa eventualidade dispunha da colaboração do seu ajudante de campo, o general Cabul, um braco alemão de alto lá com ele, e que lhe custara os olhos da cara. Desta vez não levava o cão. Desde o dia anterior o perro estava a desfazer-se numa caganeira mortal, amodorrado, as orelhas murchas. O odor era o de uma morte anunciada.
Foi avançando. Lá mais à frente tinha a bifurcação conhecida. Uma para a serra d'Arga. A outra para Santa Luzia. Tinha que se decidir. Ou sim ou sopas. O barulho do motor, incomodo, de mau agoiro é que intrigava o Joel Talina. E porque entretanto se encontrava mais perto, foi fácil perceber que o carro ronronante não devia estar muito longe das ruinas enigmáticas do convento de S. Francisco do Monte. Dizia-se que o local abandonado era habitado por ogres, cocas e bichos-papão. também ali se refugiavam casalinhos de jovens apaixonados, amantes secretos, ou até um pessoal para tomas suicidas de crack.
O caminho para as ruínas não tinha passagem para mais lado nenhum. Quem lá ia, levava uma fisgada.
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