segunda-feira, 23 de março de 2020

6. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

6. 

      Decidido a  rumar até ao ronronar persistente do motor, Joel Talina entrou no pinhal denso, pisando as folhas caídas no chão, um tapete que se formara com os primeiros dias de Outono. Não queria deixar pegadas, já que se houvesse um qualquer berbicacho, as botas seriam facilmente identificadas. Eram as que calçara no Afeganistão com uma sola específica do exército português. Pelo sim, pelo não e porque lhe cheirava a esturro, «filho, já sopram os ventos da desgraça», retirou a kalashnikov  do ombro, empunhou-a firme. Meteu um chumbo na câmara, travou a arma.
     Sempre a coberto da vegetação, foi subindo até alcançar as ruínas enigmáticas do convento de S- Francisco do Monte. Aninhou-se contra a parede em pedra grossa, contou até cinco, numa manobra de actuação segura à conta dos afegãos de trombas tapadas, sempre que faziam avanços pelas ruelas estreitas e arenosas dos arredores de Cabul.
      -Um....dois...
      Com todos os sentidos activados, esperou para ouvir vozes, murmúrios, gemidos.
      - Três…. quatro…
       Nada, mesmo nada. A brisa do vento pelos ramos das árvores e aquele roncar sem pausas do motor.
       - Cinco! Vamos lá, porra!
       Ergueu-se, caminhou agachado, rente ao muro em pedra antiga que delimitava o convento arruinado. O seu estado de alerta atingia o zénite de concentração. Colocava os pés no chão, sem pressas, sempre atento, sempre a pau com o que ouvisse de suspeito.  A respiração era um pandemónio dentro do peito, apesar da humidade tinha a garganta seca. Um pensamento sacana atravessou-se-lhe na cabeça. E se voltasse para trás? O raio da intuição que tão bem desenvolvera na terra dos afegãos de trombas cobertas era isso que o aconselhava: «Não te metas em merdas que podes sair delas todo cagado.»
      Mas sentia uma necessidade avassaladora de resgatar os seus medos, destruir de vez a inquietação que jamais o abandonava. Precisava de uma prova que certificasse a eliminação dos seus temores. Regressar era fácil, ir para a  coelhagem. Era fácil mas era uma cobardice.
        Sempre aninhado, hesitante, vou ou fico, porra, foi quando a uns vintes metros, topou o vulto da uma viatura envolta na penumbra lunar, estacionada na clareira que se abria frente à entrada do convento esventrado. O barulho do motor era agora perfeitamente audível, atingia a placidez das estrelas escondidas atrás das nuvens. 
         Mantendo-se no mesmo sítio, vencendo a penumbra, Joel conseguiu identificar o carro. Era um Alfa-Romeo Spider dos anos 70, uma jóia do automobilismo  italiano. Atónito, firmando melhor a vista, julgou reconhecer o carro do seu amigo e comparsa nas anfetaminas, Ruy Alberto. Não, era impossível ser o carro  dele apesar de saber que aquele modelo era o único na cidade. E arredores, já agora. Que fazia ali o Ruy Alberto, cujo síndrome de Asperger impedia de sair de casa, sempre às voltas com as magias laboratoriais?
      Cheirava a esturro? Cheirava e não era pouco.

Sem comentários:

Enviar um comentário