domingo, 29 de março de 2020

8. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

8.

      - Então aguarde no local enquanto procedemos às diligências necessárias - ordenou o 112. -Queira identificar-se. Nome completo...
      Joel Talina desligou abruptamente. Já falara demais, aludira ao Afeganistão, porra. Gato escondido... Todavia cumprira o ser dever de cidadão, respeitador dos mortos, e de todos os que precisam de auxílio. Pese embora o atarantamento, puxou as luvas bem acima dos pulsos, enfiou-se no carro que mantinha a porta aberta e a luzinha interior acesa. Esticou-se para o porta-luvas no outro lado. Abriu-o, retirou uma papelada sem interesse, um manual de instruções para uma panela-de- pressão laboratorial de 20 litros. Enfiou a mão, pressionou o fundo do porta-luvas que com um click se abriu. Tacteou com todo o cuidado, retirou uma embalagem de plástico com vários comprimidos azuis, sarapintados, e um outro com dinheiro.
      Na verdade  acreditava ser um grande pecado roubar um morto, ainda por cima seu amigo e confrade no negócio manhoso das anfetaminas.
       «Joel» avisava a mãe, alambazando-se com chocolates para alimentar a âmbria felina « os mortos têm memória.  Estão à nossa espera para dizer o que calaram em vivos.»
      Um odor adocicado alcançou-lhe o nariz. Virou-se para trás e deparou com uma caixa de bolos colocada no banco traseiro, o nome bem identificado: Pastelaria Zá Natário. Sempre de luvas, abriu a tampa e os seus olhos caíram sobre seis bolas-de-berlim. Não resistiu aos apelos de um estômago que tomara um escasso mata-bicho, tirou uma, espetou-a na boca, voltou a pôr tudo no seu lugar.
          Pensou em desligar o motor cujo ronronar lhe mexia com os nervos, mas logo desistiu da ideia, temoroso, como numa cisma sem explicação, que o falecido desse conta do que se estava a passar. Saiu do carro, deu uma última olhadela ao seu interior, deu uma larga dentada na bola-de-berlim, atafulhou a boca, virou-a em mastigações rápidas, enfiou aquilo tudo pela goela abaixo. Não queria que o amigo o apanhasse  a fazer o que não devia. Supersticioso, crescera ouvindo as histórias e crendices contadas pela mãe e das quais jamais de libertara.
        Com uma coragem desencantada nem ele sabia onde, dobrou-se para o falecido, afagou  a cara de anjo-bom do amigo.
       - Que vieste aqui fazer, Ruy Alberto? - Murmurou, condoído. - Porque raio saíste da casa?
       Sob a luz escassa  da  alvorada, pareceu-lhe que ele mexera os lábios. Os mortos querem dizer o que calaram em vivos especialmente quando sopram os ventos da desgraça. Era, não era?
      O Ruy Alberto quisera dizer-lhe qualquer cosa, uma última mensagem, um pedido, um adeus. Joel Talina rodou nos calcanhares, ajeitou no ombro a kalashninov. Correu o mais depressa que pôde, fugindo dos seus medos.

       Nessa madrugada  de 11 de Outubro de 2016, os ventos da desgraça tinham-se levantado, sôfregos, tal como previra a mãe de Joel Talina, a viúva Anunciação das Boas Incumbências. A morte também saíra ao caminho para os lados de Aguiar da Beira, levando consigo dois agentes da GNR e um casal de civis. Os quatro no mesmo local. Nessa mesma madrugada, em Viana do Castelo, calhara outro infortúnio - o homicídio violento de um jovem conhecido pelo seu desconforto perante o mundo dos humanos, poe ser um alquimista prodigioso em químicas sobrenaturais e viver fechado no seu castelo encantado lá para os lados da Serra d'Arga.

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