sexta-feira, 20 de março de 2020

4 . OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO


4.
      A  hora e o tempo é que eram de estranhar. Ainda faltava um bocado para as sete, a madrugada mal se anunciava atrás da serra d'Arga. E o raio de um motor, ron-ron-ron,ron, que não saía da cepa torta. Com aquela intuição do perigo que fora obrigado a desenvolver na comissão de guerra no Afeganistão, pensou que o melhor era ir à vidinha cinegética já que para isso não se atirara para cima da cama, após uma horas largas de serviço no hospital. O vício quase demente da caça era como uma doença parasita que exigia ser alimentada. Não tinha outros vícios, é verdade. Nem tabaco, nem tainadas, menos ainda convívios frequentes com a malta da mesma idade, muitos seus colegas de escola. Miúdas eram as de ocasião, encontradas em bares e discotecas, onde ele poucas vezes punha os butes. Elas não se faziam de púdicas perante um jovem de trinta e poucos anos, cabeça rapada e uns olhos verdes, luminosos, insuperáveis. Joel Talina derrotava-as sem que tivesse necessidade de abrir a boca. Sisudo, próximo da dureza de trato, deixava que elas o enleassem, absorto na sua nostalgia.
         O físico alentado escondia um coração trémulo, ligeiramente assustadiço, um coisa que nem era de homem nem nada que se parecesse. Crescera sob a asa doentia de uma mãe sem deixar lugar para o risco e para o mistério. Joel era o seu filho único, seu eleito, sua razão de vida. Amava-o com uma voracidade de provocação.
      E se se tinha enfiado na guerra no Afeganistão, uma alhada que ainda hoje lhe provocava pesadelos duros, fora porque a mãe, mais uma vez, nessa altura, socorrera-se das suas intuições de maga:
        « Filho meu, Joelinho, levantaram-se os ventos da desgraça, tão fortes e tão negros como nunca vi.»
        Desandara no primeiro contingente para a trapalhada do Afeganistão porque uns dias depois da premonição da mãe, chegaram-lhe as orelhas ums zunzuns que tinam a ver com a investigação da Judiciária na zona de Viana do Castelo. Andavam no encalço da rede de distribuição de anfetaminas, de que ele fazia parte, anfetaminas essas fabricadas pelo seu amigo Ruy  Alberto. O que foi o que não foi, viu-se que tinha sido rebate falso. 
     O diabo era o motor a trabalhar, quase de certeza nas ruinas do convento de S. Francisco do Monte. Era como uma sereia, sim uma sereia, que o chamava. Ele bem não queria ir. Mas tinha tanta raiva atrasada por se saber  fracote de ânimo que tratou de obedecer ao  chamamento.


   

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