domingo, 22 de março de 2020

5. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

5.   

       São 6h37 e Joel Talina está no sopé do monte de Santa Luzia, rodeado de vegetação silvestre, árvores despidas pelo Outono, o marulhar pacífico de um regato acordado pelas primeiras chuvadas após um Verão escasso de nuvens e humidade. Calçou as luvas, ajeitou a arma numa pausa para saber com que linhas havia de se coser. O motor s trabalhar, o sacana, com aquele ron-ron-ron de gata tal como as garinas em cio que nas discotecas lhe faziam olhinhos programados  para o cativarem, a quem ele, pacífico e sem enfado, se rendia.
       Se mantivesse o hábito de todas as caçadas ignorava o chamamento de gata, vindo la cima do convento se S. Francisco do Monte e desandava na direcção da Serra d'Arga, detendo a um quilómetro na casa isolada do seu amigo Ruy Alberto. 
         Este, com o seus olhos imensos, esparvoados, e uma pela branca, doentia, pouco afagada pela luz solar, vivia ali sozinho, como um anjo escondido que recusa enfrentar a matilha de adultos. Há muito que andava embrenhado em experiências laboratoriais, num ritual com qualquer coisa de sagrado, sintetizando uma anfetamina do paraíso, vendida e distribuída por três amigos confiáveis de há muitos anos. A ténue síndroma de Asperger que enleava o Ruy Alberto e a fortuna do pai, tinham elevado os seus conhecimentos a manipulações químicas de um nível impensável para um amador e que tocava o mistério.
        Bem vistas as coisas, a surtida à coelhagem ia dar em águas de bacalhau até porque não trazia o general Cabul. Ouvindo o ronronar manso do motor, persistente, inquebrantável, decidiu-se a não resistir-lhe. Ia descobrir o que se passava, para ele tão estranho, esquisito mesmo. Se no Afeganistão usara de todas as cautelas - aquela maltosa ocultava perigosos enigmas sob os turbantes e fraldões talares - também no Afeganistão aprendera a revistar, obedecendo a todas as cautelas e mais alguma,  todos os cantos e cantinhos onde se podiam albergar suspeitos ou munições de guerra. Até as crianças, perigosas na sua aparente ingenuidade. Fazia-o com um misto de curiosidade e desafio, excitado por uma adrenalina brava  que lhe fazia esquecer o medo e que hoje, vá lá saber-se porquê, tinha saudades.
            Desviou-se do trilho mais que batido. Lentamente, tendo cuidado de ver onde punha os pés, subiu na direcção do apelo: o motor a chamá-lo. De vez em quando detinha-se, alerta como no Afeganistão, atento a um som, um ruído, ao rastejar de um bicho. Talvez raposas e javalis, uma bicheza que durante o Verão fora forçada a aproximar-se do casario das freguesias à volta de Viana do Castelo..
          A excitação alterara-lhe os batimentos do coração e a tranquilidade da respiração. Por outro lado derrotara-lhe os velhos medos que jamais o abandonavam.
             - Raios partam! Vamos lá ver o que se passa. - Animou-se para dentro de si mesmo, encorajando-se para não cair no pântano do medo. - Vamos lá, porra! Vamos lá.

Sem comentários:

Enviar um comentário