7.
O nevoeiro, o nevoeiro sem tréguas que mantinha Viana do Castelo numa espécie de adormecimento de galinha choca. Joel Talina avançou dois passos, agachado, escudou-se atrás de uma árvore. Não era apenas o Alfa Romeo Spider -sempre. sempre a trabalhar, o sacana - que tinha agora razoavelmente à vista. Havia mais qualquer coisa. Com um estremeção que lhe fez contrair o estômago, descortinou um vulto deitado no chão enlameado, uma parte do corpo sob a frente do carro. O rosto estava virado para Joel Talina, de bruços, braços abertos.
Desta vez, esquecendo-se da contagem protectora, nervoso pela excitação medrosa, tratou de chamar, a voz esganada:
- Oh chefe! Tudo bem?
A pergunta pareceu-lhe uma idiotice. Agora sim, não tinha dúvidas que o vulto era o de um homem da sua idade, talvez um pouco mais velho. Repetiu a pergunta inquiritiva, um pouco mais alto. E o vulto nada. Sempre agachado, numa corridinha fulgurante, foi até à traseira da viatura. Atento, atentíssimo, voltou a pesquisar à sua volta. Silêncio e humidade, a brisa pelas folhas. Acendeu o foco da AK47.
Quando finalmente fez incidir a luz sobre o rosto da figura deitada, o que viu deixou-o horrorizado, o coração num tropel desenfreado, apesar de no Afeganistão já ter visto toda a merda que havia para ver.. Não era apenas a cabeça empapada de sangue que escorrera para a lama do chão. Era, desgraçadamente, alguém que ele conhecia desde a escola primária na Meadela, o seu amigo íntimo, chegado e protegido Ruy Alberto. Sufocou um berro. Podia lá ser. O Ruy!! Apesar de tudo, este mantinha a o rosto de anjo bom, bonito até, como se tivesse encontrado a serenidade que tanto buscara. Sem sair de onde estava, procurou acalmar o remoinho de emoções que deflagrara dentro de si, Mais calmo, a sua primeira ideia foi a de se deslocar até ele, procurar tirar a limpo o que havia, se é que havia, o que ocorrera. O seu grande amigo estava mais que morto, era bom de ver, assassinado, de cabeça aberta. Joel Talina não se mexeu.
Havia que ligar ao 112 e, numa informação rápida, comunicar o ocorrido. Mas cautelas e caldos de galinha são o que são e utilizar o seu telemóvel nem por sombras. Indo buscar uma coragem nem ele sabia onde, aproximou-se do cadáver, dobrou-se para o corpo, cruzou o sinal da cruz sobre o peito. pediu perdão ao morto. Com a mão tremente, sentindo a vergonha de estar a cometer um pecado hediondo, vasculhou os bolsos do casaco do Ruy Alberto. Encontrou o que queria, um smartphone da última geração.
Virou-se de costas como se o morto o pudesse ouvir. Atarantado, de gestos precipitados, ligou para o 112. Eram exactamente 7h10. Estabelecida a ligação - sabia que o atendimento era feito por um agente no Comando da Polícia de Viana do Castelo - informou o que tinha a informar: um morto, cabeça esmagada, um charco de sangue, um automóvel, ainda a trabalhar. Local: monte de Santa Luzia, mais propriamente na clareira em frente às ruínas do Convento de S. Francisco.
- Muito bem. Confirma então que estamos a 11 de Outubro, são 7h10 de um terça-feira.- Correcto,112.
- Um morto, sexo masculino.
- Correcto 112.
- Há mais pessoas envolvidas?
- Negativo, 112.
- Tem a certeza que a vítima está falecida?
- Correcto, 112. Não se mexe, não respira. Na guerra do Afeganistão, mortos foi o que mais vi. Por isso…
Calou-se, subitamente atordoado pelo descuido informativo. Não se queria envolver, nadinha, ficar longe de arrelias e todo o tipo de chatices. Amaldiçoou a tagaralice que o tinha traído, ele que até era de poucas falas.
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