terça-feira, 24 de março de 2020

7 OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

7.

      O nevoeiro, o nevoeiro sem tréguas que mantinha  Viana do Castelo numa espécie de adormecimento de galinha choca. Joel Talina avançou dois passos, agachado, escudou-se atrás de uma árvore. Não era  apenas o Alfa Romeo Spider -sempre. sempre a trabalhar, o sacana -  que tinha agora razoavelmente à vista. Havia mais qualquer coisa. Com um estremeção que lhe fez contrair o estômago, descortinou um vulto deitado no chão enlameado, uma parte do corpo sob a frente do carro. O rosto estava virado para Joel Talina, de bruços, braços abertos.
          Desta vez, esquecendo-se da contagem protectora, nervoso pela excitação medrosa, tratou de chamar, a voz esganada:
           - Oh chefe! Tudo bem?
          A pergunta pareceu-lhe uma idiotice. Agora sim, não tinha dúvidas que o vulto era o de um homem da sua idade, talvez um pouco mais velho. Repetiu a pergunta inquiritiva, um pouco mais alto. E o vulto nada. Sempre agachado, numa corridinha  fulgurante, foi até à traseira da viatura. Atento, atentíssimo, voltou a pesquisar à sua volta. Silêncio e humidade, a brisa pelas folhas. Acendeu o foco da AK47. 
        Quando finalmente fez incidir a luz sobre o rosto da figura deitada, o que viu deixou-o horrorizado, o coração num tropel desenfreado, apesar de no Afeganistão já ter visto toda a merda que havia para ver.. Não era apenas a cabeça empapada de sangue que escorrera  para a lama do chão. Era, desgraçadamente, alguém que ele conhecia desde a escola primária na Meadela, o seu amigo íntimo, chegado e protegido Ruy Alberto. Sufocou um berro. Podia lá ser. O Ruy!! Apesar de tudo, este  mantinha a o rosto de anjo bom, bonito até, como se tivesse encontrado a serenidade que tanto buscara. Sem  sair de onde estava, procurou acalmar o remoinho de emoções que deflagrara dentro de si, Mais calmo, a sua primeira ideia foi a de se deslocar até ele, procurar tirar a limpo o que havia, se é que havia,  o que ocorrera. O seu grande amigo estava mais que morto, era bom de ver, assassinado, de cabeça aberta. Joel Talina não se mexeu. 
         Havia que ligar ao 112 e, numa informação rápida, comunicar o ocorrido. Mas cautelas e caldos de galinha são o que são e utilizar o seu telemóvel nem por sombras. Indo buscar uma coragem nem ele sabia onde, aproximou-se do cadáver, dobrou-se para o corpo, cruzou o sinal da cruz sobre o peito. pediu perdão ao morto. Com a mão tremente, sentindo a vergonha de estar a cometer um pecado hediondo, vasculhou os bolsos do casaco do Ruy Alberto. Encontrou o que queria, um smartphone da última geração.
          Virou-se de costas como se o morto o pudesse ouvir. Atarantado, de gestos precipitados, ligou para o 112. Eram exactamente 7h10. Estabelecida a ligação - sabia que o atendimento era feito por um agente no Comando da Polícia de Viana do Castelo - informou o que tinha a informar: um morto, cabeça esmagada, um charco de sangue, um automóvel, ainda a trabalhar. Local: monte de Santa Luzia, mais propriamente na clareira em frente às ruínas do Convento de S. Francisco.
           - Muito bem. Confirma então que estamos a 11 de Outubro, são 7h10 de um terça-feira.
            - Correcto,112.
            - Um morto, sexo masculino.
             - Correcto 112.
             - Há mais pessoas envolvidas?
             - Negativo, 112.
             - Tem a certeza que a vítima está falecida?
             - Correcto, 112. Não se mexe, não respira. Na guerra do Afeganistão, mortos foi o que mais vi. Por isso…
              Calou-se, subitamente atordoado pelo descuido informativo. Não se queria envolver, nadinha, ficar longe de arrelias e todo o tipo de chatices. Amaldiçoou  a tagaralice que o tinha traído, ele que até era de poucas falas.
           

segunda-feira, 23 de março de 2020

6. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

6. 

      Decidido a  rumar até ao ronronar persistente do motor, Joel Talina entrou no pinhal denso, pisando as folhas caídas no chão, um tapete que se formara com os primeiros dias de Outono. Não queria deixar pegadas, já que se houvesse um qualquer berbicacho, as botas seriam facilmente identificadas. Eram as que calçara no Afeganistão com uma sola específica do exército português. Pelo sim, pelo não e porque lhe cheirava a esturro, «filho, já sopram os ventos da desgraça», retirou a kalashnikov  do ombro, empunhou-a firme. Meteu um chumbo na câmara, travou a arma.
     Sempre a coberto da vegetação, foi subindo até alcançar as ruínas enigmáticas do convento de S- Francisco do Monte. Aninhou-se contra a parede em pedra grossa, contou até cinco, numa manobra de actuação segura à conta dos afegãos de trombas tapadas, sempre que faziam avanços pelas ruelas estreitas e arenosas dos arredores de Cabul.
      -Um....dois...
      Com todos os sentidos activados, esperou para ouvir vozes, murmúrios, gemidos.
      - Três…. quatro…
       Nada, mesmo nada. A brisa do vento pelos ramos das árvores e aquele roncar sem pausas do motor.
       - Cinco! Vamos lá, porra!
       Ergueu-se, caminhou agachado, rente ao muro em pedra antiga que delimitava o convento arruinado. O seu estado de alerta atingia o zénite de concentração. Colocava os pés no chão, sem pressas, sempre atento, sempre a pau com o que ouvisse de suspeito.  A respiração era um pandemónio dentro do peito, apesar da humidade tinha a garganta seca. Um pensamento sacana atravessou-se-lhe na cabeça. E se voltasse para trás? O raio da intuição que tão bem desenvolvera na terra dos afegãos de trombas cobertas era isso que o aconselhava: «Não te metas em merdas que podes sair delas todo cagado.»
      Mas sentia uma necessidade avassaladora de resgatar os seus medos, destruir de vez a inquietação que jamais o abandonava. Precisava de uma prova que certificasse a eliminação dos seus temores. Regressar era fácil, ir para a  coelhagem. Era fácil mas era uma cobardice.
        Sempre aninhado, hesitante, vou ou fico, porra, foi quando a uns vintes metros, topou o vulto da uma viatura envolta na penumbra lunar, estacionada na clareira que se abria frente à entrada do convento esventrado. O barulho do motor era agora perfeitamente audível, atingia a placidez das estrelas escondidas atrás das nuvens. 
         Mantendo-se no mesmo sítio, vencendo a penumbra, Joel conseguiu identificar o carro. Era um Alfa-Romeo Spider dos anos 70, uma jóia do automobilismo  italiano. Atónito, firmando melhor a vista, julgou reconhecer o carro do seu amigo e comparsa nas anfetaminas, Ruy Alberto. Não, era impossível ser o carro  dele apesar de saber que aquele modelo era o único na cidade. E arredores, já agora. Que fazia ali o Ruy Alberto, cujo síndrome de Asperger impedia de sair de casa, sempre às voltas com as magias laboratoriais?
      Cheirava a esturro? Cheirava e não era pouco.

domingo, 22 de março de 2020

5. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

5.   

       São 6h37 e Joel Talina está no sopé do monte de Santa Luzia, rodeado de vegetação silvestre, árvores despidas pelo Outono, o marulhar pacífico de um regato acordado pelas primeiras chuvadas após um Verão escasso de nuvens e humidade. Calçou as luvas, ajeitou a arma numa pausa para saber com que linhas havia de se coser. O motor s trabalhar, o sacana, com aquele ron-ron-ron de gata tal como as garinas em cio que nas discotecas lhe faziam olhinhos programados  para o cativarem, a quem ele, pacífico e sem enfado, se rendia.
       Se mantivesse o hábito de todas as caçadas ignorava o chamamento de gata, vindo la cima do convento se S. Francisco do Monte e desandava na direcção da Serra d'Arga, detendo a um quilómetro na casa isolada do seu amigo Ruy Alberto. 
         Este, com o seus olhos imensos, esparvoados, e uma pela branca, doentia, pouco afagada pela luz solar, vivia ali sozinho, como um anjo escondido que recusa enfrentar a matilha de adultos. Há muito que andava embrenhado em experiências laboratoriais, num ritual com qualquer coisa de sagrado, sintetizando uma anfetamina do paraíso, vendida e distribuída por três amigos confiáveis de há muitos anos. A ténue síndroma de Asperger que enleava o Ruy Alberto e a fortuna do pai, tinham elevado os seus conhecimentos a manipulações químicas de um nível impensável para um amador e que tocava o mistério.
        Bem vistas as coisas, a surtida à coelhagem ia dar em águas de bacalhau até porque não trazia o general Cabul. Ouvindo o ronronar manso do motor, persistente, inquebrantável, decidiu-se a não resistir-lhe. Ia descobrir o que se passava, para ele tão estranho, esquisito mesmo. Se no Afeganistão usara de todas as cautelas - aquela maltosa ocultava perigosos enigmas sob os turbantes e fraldões talares - também no Afeganistão aprendera a revistar, obedecendo a todas as cautelas e mais alguma,  todos os cantos e cantinhos onde se podiam albergar suspeitos ou munições de guerra. Até as crianças, perigosas na sua aparente ingenuidade. Fazia-o com um misto de curiosidade e desafio, excitado por uma adrenalina brava  que lhe fazia esquecer o medo e que hoje, vá lá saber-se porquê, tinha saudades.
            Desviou-se do trilho mais que batido. Lentamente, tendo cuidado de ver onde punha os pés, subiu na direcção do apelo: o motor a chamá-lo. De vez em quando detinha-se, alerta como no Afeganistão, atento a um som, um ruído, ao rastejar de um bicho. Talvez raposas e javalis, uma bicheza que durante o Verão fora forçada a aproximar-se do casario das freguesias à volta de Viana do Castelo..
          A excitação alterara-lhe os batimentos do coração e a tranquilidade da respiração. Por outro lado derrotara-lhe os velhos medos que jamais o abandonavam.
             - Raios partam! Vamos lá ver o que se passa. - Animou-se para dentro de si mesmo, encorajando-se para não cair no pântano do medo. - Vamos lá, porra! Vamos lá.

sexta-feira, 20 de março de 2020

4 . OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO


4.
      A  hora e o tempo é que eram de estranhar. Ainda faltava um bocado para as sete, a madrugada mal se anunciava atrás da serra d'Arga. E o raio de um motor, ron-ron-ron,ron, que não saía da cepa torta. Com aquela intuição do perigo que fora obrigado a desenvolver na comissão de guerra no Afeganistão, pensou que o melhor era ir à vidinha cinegética já que para isso não se atirara para cima da cama, após uma horas largas de serviço no hospital. O vício quase demente da caça era como uma doença parasita que exigia ser alimentada. Não tinha outros vícios, é verdade. Nem tabaco, nem tainadas, menos ainda convívios frequentes com a malta da mesma idade, muitos seus colegas de escola. Miúdas eram as de ocasião, encontradas em bares e discotecas, onde ele poucas vezes punha os butes. Elas não se faziam de púdicas perante um jovem de trinta e poucos anos, cabeça rapada e uns olhos verdes, luminosos, insuperáveis. Joel Talina derrotava-as sem que tivesse necessidade de abrir a boca. Sisudo, próximo da dureza de trato, deixava que elas o enleassem, absorto na sua nostalgia.
         O físico alentado escondia um coração trémulo, ligeiramente assustadiço, um coisa que nem era de homem nem nada que se parecesse. Crescera sob a asa doentia de uma mãe sem deixar lugar para o risco e para o mistério. Joel era o seu filho único, seu eleito, sua razão de vida. Amava-o com uma voracidade de provocação.
      E se se tinha enfiado na guerra no Afeganistão, uma alhada que ainda hoje lhe provocava pesadelos duros, fora porque a mãe, mais uma vez, nessa altura, socorrera-se das suas intuições de maga:
        « Filho meu, Joelinho, levantaram-se os ventos da desgraça, tão fortes e tão negros como nunca vi.»
        Desandara no primeiro contingente para a trapalhada do Afeganistão porque uns dias depois da premonição da mãe, chegaram-lhe as orelhas ums zunzuns que tinam a ver com a investigação da Judiciária na zona de Viana do Castelo. Andavam no encalço da rede de distribuição de anfetaminas, de que ele fazia parte, anfetaminas essas fabricadas pelo seu amigo Ruy  Alberto. O que foi o que não foi, viu-se que tinha sido rebate falso. 
     O diabo era o motor a trabalhar, quase de certeza nas ruinas do convento de S. Francisco do Monte. Era como uma sereia, sim uma sereia, que o chamava. Ele bem não queria ir. Mas tinha tanta raiva atrasada por se saber  fracote de ânimo que tratou de obedecer ao  chamamento.


   

terça-feira, 17 de março de 2020

3. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

3.


         Atraído pelo ronronar misterioso de um carro, vindo lá de cima, da serra, numa madrugada escura, Joel Talina fez um pequeno desvio como sempre, para evitar o carvalho do Enforcado, uma árvore carregada de anos, maldita, temível, que crescera encostada a uma formação granítica conhecida como a Barriga do Diabo. Não era para menos. na árvore enforcara-se o pai, por exemplo. Já passara por ali centenas de vezes, desde a sua infância silvestre, mas era incapaz de se habituar à sua  visão. Pior ainda era o que se dizia da puta da árvore: das suas raízes libertavam-se vozes sumidas, como que vindas do além túmulo.
          Joel Talina estava longe de ser corajoso. E se fazia aquela caminhada para caçar coelhos, sem medo e a horas carregadas de escuridão era porque estava no seu ambiente, sem nada de invulgar. Aparentemente.
       Mas o problema era o motor a trabalhar, soturno, sem uma pausa, a moer-lhe o juizinho. Era por isso um transtorno desagradável na segurança dos seus hábitos. Cagarolas, receou o imprevisível recordando o aviso da mãe, olha, filho, põe-te fino que acordaram os ventos da desgraça.
       A tiracolo, presa pela bandoleira, a sua pressão-de-ar quitada, quitada e de que maneira. Com a mãozinha encoberta de um armeiro, reforçara a câmara de explosão da arma, tornando uma espécie de AK47. Ganhou um alcance de tiro seguro de uns cem metros, com chumbos 4.5. Com esta jigajoga fraudulenta o chuço passara a ser perigoso, mortal. Anexara por cima da mira, uma lâmpada duas lâmpadas led  que lhe permitia, mesmo na escuridão mais densa, iluminar  espaço à sua frente onde devia estar o alvo e que o levava a desandar de casa tão - coelhos.
       Na caça, o chumbada apesar do calibre, da força do tiro e da sua pontaria, eram suficientes para abater o bicho logo ali, esperneando pela aflição da agonia. Até se esvair em sangue, os vasos do corpo secos como valas no Verão. Mas se o tiro apanha a vítima de raspão, desaparecia por entre ervas e silvas, a agonizar, sabia-se lá onde e por quanto tempo. Para essa eventualidade dispunha da colaboração do seu ajudante de campo, o general Cabul, um braco alemão de alto lá com ele, e que lhe custara os olhos da cara. Desta vez não levava o cão. Desde o dia anterior o perro estava a desfazer-se numa caganeira mortal, amodorrado, as orelhas murchas. O odor era o de uma morte anunciada.
       Foi avançando. Lá mais à frente tinha a bifurcação conhecida. Uma para a serra d'Arga. A outra para Santa Luzia. Tinha que se decidir. Ou sim ou sopas. O barulho do motor, incomodo, de mau agoiro é que intrigava o Joel Talina. E porque entretanto se encontrava mais perto, foi fácil perceber que o carro ronronante não devia estar muito longe das ruinas enigmáticas do convento de S. Francisco do Monte. Dizia-se que o local abandonado era habitado por ogres, cocas e bichos-papão. também ali se refugiavam casalinhos de jovens  apaixonados, amantes secretos, ou até um pessoal para tomas suicidas de crack. 
       O caminho para as ruínas não tinha passagem para mais lado nenhum. Quem lá ia, levava uma fisgada.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

2. OS CRMES DE VIANA DO CASTELO

                                O ESTRANHO CASO DOS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

                                                                           (thriller)



2

          Joel Talina saiu de casa, puxando a pala do boné para os olhos e começou a percorrer o caminho mal alcatroado que levava à serra. Era mortiça a luz dos poucos candeeiros públicos, incapaz de atravessar o nevoeiro.
         Naquela que fora a velha e remediada Cova, todas as casas eram vivendas modestas e antigas, com os seus telhados escurecidos pelo musgo, as paredes onde faltava reboco. Tinham um alpendrezinho por cima da porta da frente e à frente um pequeno espaço em terra, aproveitado  para jardim ou horta, esta adubada com o estrume das galinhas, guardadas num capoeiro nas traseiras.
         Eram propriedade daqueles que trabalhavam nos estaleiros ou nos serviços camarários mais modestos, para onde, em tempos não muito recuados, se deslocavam de bicicleta por atalhos impensáveis. Verdadeiramente tudo isso acabara. Já ninguém se deslocava para a cidade de bicicleta, eram quase todos velhos, odiando-se mutuamente, alimentando ódios ancestrais.
          Ultrapassado o casario, Joel Talina virou à esquerda e entrou no caminho de pé posto. A partir dela não havia iluminação pública mas isso não era problema já que ele conhecia o trajecto de olhos fechados, de olhos fechados e olfacto atento. Os odore que se soltavam de cada pedaço de terra eram-lhe familiares, reconhecia-os pelo cheiro. Mais à frente, à beira da propriedade do ti Larica, chegou-lhe à narinas o odor doce das uvas morangas - proibidas por lei - que  ele ainda mantinha para honrar a memória do pai. Fora este que as plantara . Colhia poucas, o resto sobrante ficava para os melros que também são filhos da natureza.
          Em puto, ele e mais alguns iam rouba-las  embora soubessem que o tio Larica tinha-as à disposição para quem as viesse pedir. bastava pedir. Mas o roubo dava outro sainete ao golpe. A não ser assim é como ir ao supermercado. Eles eram muito mauzinhos, eram. Roubavam as  uvas ao ti Larica, a galinha mais gorda. Até o porco, seduzido por cenouras, foi levado uma vez até à estrada que dava para a cidade. Nunca se tinha vusto  nada assim, um porco a deambular pelo alcatrão, com todos os vagares. Eles eram mauzinhos, eram.
          Começou a cair uma chuva miudinha, ajustou o boné. Prosseguiu  em frente, já a subir, as botas militares que de vez em quando resvalavam na lama. Apesar da escuridão da madrugada, caminhava com passada firme mas cautelosa, meio curvado. O camuflado ficava-lhe apertado, o cinto preso no último furo, porque engordara dez quilos, vítima dos cozinhados da mãe que o tratava como se ele fosse o arquiduque de Andorra. O camuflado, com as cores de areia do deserto, trouxera-o da guerra no Afeganistão onde, segundo ele - e não se cansava de o repetir - vira a pior merda que se pode imaginar.
        Deteve-se. Sentiu-se mais perto daquele carro  trabalhar.  Mas que porra é esta? pensou consigo. Cheira-me a esturro. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

1 - OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

               

                   
                  O ESTRANHO CASO DOS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

                                                   (thriller/policial)


             1.
            No caminho de pé posto que saía da Cova da Meadela até às ruínas do mosteiro de S. Francisco do Monte, Joel Talina estacou a marcha. Chegou-lhe aos ouvidos o trabalhar enfadonho e monótono de um carro, lá para cima, para a serra. O som estava longe, pareceu-lhe. Mas o silêncio espesso da noite e a brisa que soprava do lado do mar, traziam-no até ele como se estivesse ali, a poucas dezenas de passos. A neblina funcionava como um caixa de ressonância, uma neblina peganhenta, que se introduzia na roupa e tocava os ossos.
            11 de Outubro de 2016, 6h30 de uma madrugada sombria. O Outono começara com chuvadas violentas, enxurradas, deslizamento de terra e muitos alertas da Protecção Civil. Um motor a trabalhar não seria nada de especial se não fossem as horas que eram e donde pareciam vir. Uma alvorada de terça-feira triste e sombria, e uma névoa cega a assentar a envolver uma cidade plácida do litoral norte: Viana do Castelo.
            Era uma noite fechada, mas Joel Talina conhecia o trilho escorregadio que percorria há muitos anos. Tinha chegado a casa há pouco menos de meia hora, depois de dois turnos consecutivos como maqueiro no hospital público, prolongados por mais cinco horas porque o colega Cabanelas, um baldas da pior espécie, não o viera render no turno.
           - Podias-me te avisado, Cabanelas - rosnou Talina com vontade de lhe ir às trombas.
           - Eu tinha lá cabeça, man. - retorquiu o Cabanelas, atento a que não viesse por ali um empurrão. -Eu estava a desfazer-me em merda!
              -Não fizeste a tropa, ora não? Tirava-te a tosse e fazia de ti o que não és. Um homenzinho.
              Assim que chegou a casa comeu uma bucha, bebeu umas goladas boas de café a que juntou umas gotas de aguardente velha. «É prá sossega», pensou com os seus botões. Despiu-se da roupa de trabalho, e vestiu o camuflado que trouxera da missão do Afeganistão, calçou as botas militares, certificou-se que tinha o telemóvel consigo. Foi ao interior da casa, direito  a um armário. Do fundo da gaveta retirou um pano com um objecto embrulhado. Era uma réplica da AK47. a sua arma de pressão de ar, quitada, com chumbos 4.5. Ia caçar coelhos, pois, à revelia da lei.
            - Tem cuidado, filho -recomendou a mãe ensonada, uma velha que a viuvez precoce e inadmissível à conta do longínquo suicídio do marido fizera azeda e descrente em Deus, um Deus que ela qualificava de analfabruto.
              Como o filho tinha chegado fora de horas do que era habitual, perguntou-lhe:
               - Raios! Porque vieste tão tarde?
               - Durma. Lá para a hora do almoço já cá estou.
               - Foi outra vez esse Cabanelas?
               - Foi.
               - Ah, carago! Se fosse comigo já o tinha fodido todo!