domingo, 14 de junho de 2020

Uma inspectora meio esgroviada

14.

       Ouviu a porta da rua a bater, Josefina José lá ia embora ao encontro do seu N'Zinga. Que porra de nome! Até parece coisa de pretos, pensou.
       O toque no telemóvel que, de novo, se fez ouvir, já não era o tambor fúnebre que identificava chamada da Central, mas um reggae  apelador de descontraída felicidade: Don't worry, be happy.  Escolhera-o para identificar Renascida Ximenes, a meio tresloucada inspectora-estagiária, e nem sabia o porquê da escolha. Ou talvez soubesse.
     Ao ser-lhe dito, há uns meses que aquela estagiária iria fazer o tirocínio com ele, não teve dúvidas que era mais uma manobra deles para o lixarem, sabendo eles, de ginjeira, que ele não resistia a mulheres  Assim sendo, eles não duvidavam que ele, mais cedo ou mais tarde, havia de se envolver com a estagiária. Eles queriam que a palha chegasse ao fogo dele.
         No dia em que ela veio apresentar-se no Comando em Braga, sendo informada que o seu orientador seria o inspector Mariano Cardeira, não perdeu um segundo em procurá-lo no gabinete. Quando ela entrou, com um sorriso rasgado, Mariano Cardeira levantou os olhos do relatório que estava a escrever ao computador, engoliu em seco: era uma jovem com um tom de pele achocolatado, umas feições correctíssimas e um cabelo curto, de pontas esticadas e aloiradas. As calças pretas, muito justas, terminavam nuns sapatões de cabedal, atados por cordões amarelos.

         O trabalho em conjunto, de meses, veio demonstrar que ela tinha  faro e conhecimentos sólidos de investigação policial. Todavia, muitas vezes ele teve que a travar. Era manienta, impulsiva  como uma bicha-de-rabiar. E mais teimosa que um burro velho, com ataques súbitos de mau-humor.
      «Graxa da minha parte não conte, colega» avisou ela na primeira vez em que saíram para uma investigação.
        Sem quê nem para quê. muitas eram as vezes em que se punha a trautear, baixinho, a canção "O Vitinho" que passou uns anos antes na RTP para mandar os putos para a cama. Mariano Cardeira interrogava-se muitas vezes como é que ela tinha passado nos testes psicotécnicos e feito o curso na Escola Superior da PSP, sem que a tivessem chumbado.
     Don't worry be happy soou-lhe de novo, a avisá-lo que tinha a estagiária tresloucada à perna. A rapariga que lhe queria? É certo que tinham pouco pessoal na Brigada de Homicídios, alguns dos seus colegas tinham sido transferidos, provisoriamente,  para o Porto, onde o crime, o ajuste de contas entre grupos rivais, os carros incendiados, tudo tinha aumentado de uma forma alarmante. E a comunicação social a fazer troar os tambores da tragédia.
        E lá soou de novo o cabrão do reggae! Essa estúpida da Renascida Ximenes não sabia que era o seu dia de folga? Não sabia ou não lhe disseram?

       
       

     

sexta-feira, 12 de junho de 2020

POR QUE TELEFONAM AO INSPECTOR?

13
         
       Voltou atrás, foi ao monte de roupa suja que ia pôr a lavar, retirou o lusão fedorento, passou-o pelos ombros. Nu, atravessou  o corredor e enfiou-se  na faraónica casa de banho, paredes forradas a mármore do Alentejo, o chão em laje preta, de superfície irregular. Tremendo de frio, as queixadas como castanholas, enfiou-se sob o chuveiro jorrando água quentíssima, ao mesmo tempo despejando a bexiga.
    Finalmente o smartphone tinha fechado a cloaca chamativa. Até o toque que ele tinha escolhido para identificar a Central - um batimento fúnebre de tambor que subia de tom até se tornar insuportável -, fora motivo para mais uma discussão com Josefina José, isto em tempos idos, ainda quando eles falavam palavras que pouco iam para além da monotonia rotineira.
      Tinha que atender o raio do aparelho, não lhe podia fugir. Mariano Cardeira pertencia à Brigada de Homicídios da Judiciária de Braga e se insistiam era porque havia merda da grossa. Mas se era o seu dia de folga por que lhe vinham chatear a mona? Vinham, vinham porque a intenção deles era lixá-lo, moer-lhe a paciência e impedi-lo  de poder desfrutar do dia  com Paloma - uma paixão que o trazia num tapete voador.
       Enquanto se ensaboava, recordou -aliás nunca mais se esquecera, como se sofresse de uma úlcera irremediável -, que há uns anos, mais exactamente em 2009, quiseram derrotá-lo com um processo disciplinar e que essa nódoa manchara o seu currículo. Por isso, era importante obedecer ao código de ética da corporação, baixar a crista. Tinha, então, que atender, mostrar-se cordato, obediente. No entanto, no fundo da alma, persistia um sedimento contra o sacanão do colega Herculano Negreiro, contra outro sacanão, o seu superior Simão Magro, um santanário que não lhe perdoava ele ser um irreprimível conquistador, mas também - e aqui é batia o ponto -, ter estado incriminado no tráfico de mulheres da Ucrânia.
      A sua raiva estendia-se a toda a Judite. Eles todos, mas eles todos, tinham-se aliado para o tramar.
      Retirou a espuma abundante do corpo, secou-se com um lençol, fez a barba. Foi quando ouviu Josefina José - que ele pensava já ter saído - falar ao telemóvel. Apurou o ouvido para lhe ouvir, um pouco enciumado,  uma fala de agradecimento e de muita cortesia.
          - Grata, N'zinga. A boleia dá-me jeito… sim, sim, estou pronta. Desço já.
        Quem raio era esse N'zinga? E que porra de nome era esse? E o tom dela, tão amistoso, ele quase diria, enamorado?
         

quinta-feira, 11 de junho de 2020

12 Os crimes de Viana do Castelo

12

           O inspector Mariano Cardeira submergia-se cada vez mais num cansaço que pouco ou nada tinha a ver com a fadiga física. Era algo de psicológico, íntimo e profundo, obrigando-o a viver com um pesado ressabiamento em cima dos ombros. Talvez a saturação por trabalhar numa corporação que não lhe reconhecia os méritos, a dedicação, os sacrifícios. Talvez ainda uma amargura ácida, talvez. Mais que certa era a sensação de que todos faziam o que podiam para o entalar com a dureza implacável de um torniquete. Eles. Os outros. A corporação.  O sistema. O vento que sopra da meseta ibérica e afoga a cidade de Braga.

           A fotografia denunciadora da sua relação com Paloma, colocada no para-brisas do carro da ainda esposa Josefina José, fora mais uma manobra de achincalhamento de um deles. Eis a maquinação, a intriga, a teia da conspiração, envolvendo-o com a sua baba pegajosa, Atormentado por esta torrente, sentia tudo isso em cada dia, em cada colega, em cada superior. Apetecia-lhe guinchar  como um animal selvagem apanhado numa armadilha por onde passavam os alísios da morte.
     Por fim, lá se dispôs a atender os atropelos sonoros do  telemóvel, vencendo o seu estado de serradura. Dormira vestido após a chegada de Vila Nova de Cerveira - um caso de homicídio disfarçado de suicídio -  já a meio da madrugada. Apenas tirara os sapatos e o coldre com a Glock. As meias soltavam um cheiro requentado a chulé. Doía-lhe o joelho direito à conta da artrose debilitante que se carregava de negro de dia para dia. E se as dores eram colmatadas por anti-inflamatórios do refrigério, o estômago dera em recalcitrar, exarando as suas reclamações no livro da sensibilidade.
        Levantou-se da cama estreita, com esforço, tossiu largamente. Despiu-se todo, atirando para o chão as peças de roupa fedorentas. Tremendo de frio, porque o quartinho não tinha qualquer aquecimento, preparou-se para se esgueirar para a casa de banho. Ouviu de novo o chamamento do smartphone vindo do lado de fora, junto à porta, onde o deixara a carregar. O que lhe queriam da Central? Algum inspector superior, por certo, a chatear-lhe a mona.  Estava de piquete? Não. Tinha alguma investigação marcada para aquele dia? Não. Um caso aberto, ainda nas suas mãos? Não. Era o seu dia de folga, foda-se! Tivesse havido um homicídio nessa noite, uma cabazada de homicídios, que o seu dia de folga nem o Director Geral da Judiciária lho cortava. Ia passá-lo com quem? Com Paloma, obviamente.
         - Bardamerda! Podem esperar até o mundo deixar de ser mundo - resmungou.
          Abriu a porta, um frio ainda maior apanhou-o de chofre, fazendo-o tremelicar. A sua futura ex , essa cabra da Josefina José, deixara as janelas semiabertas, numa estratégia para o humilhar porque uma corrente de ar glacial enregelava o apartamento.
         - Puta! - rosnou, fervendo de raiva.

sábado, 4 de abril de 2020

11. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

           Subitamente, com um relâmpago de júbilo, o inspector Cardeira lembrou-se que tinha de marcar encontro com Paloma Gutierrez, a universitária mais bela de todas as universitárias do mundo e, digamos dos arredores planetários. Perdera-se  de amores fulgurantes por ela há três anos, numa data que comemoravam com presentes e juras eternas de uma paixão m chamas: 13 de Outubro de 2013. E se houvesse disponibilidade da parte dele, a data era comemorada num motel em com muito sexo inspirado no Kamasutra. Impedido por uma investigação fora de Braga, há uma semana que não desfrutava da amantíssima Paloma. Esta ressaca de amor provocava-lhe delírios de angústia.
            Os toques insistentes no seu smartphone, deixado a carregar fora da porta do coté onde dormia não eram dela porque tinha selecionado para Paloma o Only You, uma canção romântica dos tempos da Maria Cachucha mas que para ele representava a alegoria dos seus sentimentos.
          Já não se tratava de uma - mais uma - aventura com a duração de um gemido de amor, ou mais um corpo para fazer  refulgir e reforçar a sua auto estima de macho impulsivo. Transtornado de uma paixão tão típica numa idade de amadurecimento, desejava que Paloma fosse a sua companheira até ao final da vida, apesar da diferença de idades. Nem um nem outro pensavam nisso.
         Animado pelo pensamento na sua incandescente paixão, Cardeira aprestou-se a entrar no mundo real. A voz que soara para lá da porta do coté, capaz de lhe virar os fígados, era a de Josefina José, esposa que ele não queria ver nem pintada com as cores do paraíso. Vinte anos de casamento, uma relação que se foi degradando imparavelmente. Ela porque vivia  para o trabalho como gerente de uma agência bancária, uma obsessão laboral sem fim como se temesse o monstro da inactividade. Ele porque jamais resistira aos encantos de uma bela fêmea. Conhecera algumas, fornicara-as com honestidade e fervor, mas não conseguia satisfazer o seu desejo de posse e novidade. Voltava-se para outras, de aletas atiçadas pelas feromonas femininas, resfolgando de excitação. Sem um vislumbre de remorso.
        

quinta-feira, 2 de abril de 2020

10 OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

10.
        
    O inspector Mariano Cardeira dormia  numa cama atamancada do IKEA, um sono incómodo para um canastro como o seu: 1.90 de altura e 120 quilos de peso. Dormia mal e porcamente, resfolgando uma cólera surda, traduzida no desabafo incongruente:
         «Cadela de sorte.»
        O espaço emanava um forte cheiro a lixivia. Num pequeno armário, logo à entrada, estavam vários produtos de limpeza, panos do pó. Ao lado, no chão, um balde, uma vassoura e um zarapulho ainda húmido. Ainda coisas várias que foram dos dois filhos: patins, jogos, dois skates, e outro material que se guarda como relíquia de um tempo feliz que não se quer esquecer.
          Até ter as crispações reguladas com  Josefina José num divórcio de comum acordo, ele vivendo sob o mesmo tecto, aprontando-se para arrendar um T1 perto do novo estádio do Braga: a Pederneira. Até ao momento, ambos comportavam-se como desconhecidos, trocando falas raras, absolutamente necessárias, e que muitas vezes não passavam de resmungos irados. Já tinham ultrapassado a fase de gritos, ralhos e avisos envenenados com que apagaram as estrelas do céu conjugal.
        Os batimentos secos na porta do coté tinham-no acordado e não conseguia voltar a cair no sono embora quisesse. O seu corpo  alentado de urso, as gâmbias descomunais e uns pés tamanho 49 mal cabiam na cama, queriam continuar  naquele atoleiro de entorpecida serenidade. Voltaram a bater na porta, desta vez chamando-o:
       - Cardeira! -A irritação da toada era perceptível mesmo para quem tinha as pálpebras carregadas de sono. -Tens aqui uma chamada do Comando da Judiciária.
         A voz áspera de Josefina José - há quanto tempo não trocavam uma palavras a que se pudesse chamar palavra? - não precisava de dizer de quem era a chamada. Ele próprio acabara de o ouvir naquele momento. Para uma maior facilidade e segurança na comunicação, ele tinha para cada contacto um toque específico: o do Comando da Judiciária, do inspector chefe do Departamento de Homicídios, dos seus colegas mais próximos. Ainda o da estúpida esposa, que ele não apagara e, a dizer a verdade, nem sabia porquê. Finalmente, o da tão imprevisível como as tempestades do deserto: o da jovem estagiária Renascida Ximenes, uma maçarica meio destrambelhada do miolo com a qual era preciso ter uma paciência de santo, a quem ele próprio já ameaçara por várias vezes correr com ela aos pontapés e negar-lhe o aval à sua entrada definitiva na corporação.





terça-feira, 31 de março de 2020

9. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

9.        
           Na descida precipitada para a Cova da Meadela, Joel Talina não podia deixa de pensar no murmúrio que  saíra dos lábios de Ruy Alberto. Não se esquecia do que a mãe lhe dizia muitas vezes: «Filho, os mortos querem falar o que não disseram puderam em vida.» Aturdido, escorregando no chão enlameado, parou um breve instante para recuperar  fôlego, não tanto pela corrida mas mais pelo espanto amedrontado. O que queria dizer o amigo? O que me querias dizer, Ruy Alberto?


                         
                                               FALA DO MORTO DE MORTE MATADA


                             Espero com ansiedade que me levem daqui, desta nevoeirada                             que não faz nada bem   à saúde. Agora que   me                                          acho nesta condição de morto matado, desejo apenas falar,                               da maneira como fui morto, a cabeça desfeita por uma pancada.
                             A revelação da minha morte, a  maneira como  fui                                 assassinado há-de aqui ser   revelada.  Eu que  raramente saio de                       casa, que fujo aos   contactos   mundanos, quem   me  mandou                        vir para aqui, para as ruínas do   convento de   S. Francisco?       
                      Vim porque quis vir. Vim porque fui convidado. Vim porque senti                           o amor de  alguém. 
                         Não o devia ter feito.





                                                        INSPECTOR FERNANDO MARIANO CARDEIRA


               2016 - 11 de Outubro
               terça feira na cidade de Braga (8h05)

                   Aos ouvidos de Fernando Mariano Cadeira chegou um estrépito das profundas da tortura. Foi um batimento incómodo, seco, repetido na porta do compartimento de arrumos onde dormia,  coagido pelo feroz desentendimento conjugal.
        Braga amanhecia com um sol luminoso a garantir horas polongadas de luz e calor outonal. Estava frio, a temperatura ambiental era a de poucos graus positivos mas  luz solar era um incentivo para a vida. 
       Deitado na sua cama estreita, o inspector mascou a saliva, virou-se para o outro lado. Quase caíu. Retomou a posição fetal, encolhendo os pés enormes que lhe tinham ficado fora dos cobertores. Não se dava ao trabalho de usar lençóis. Limpou a baba que lhe escorrera da boca e passara ao queixo, onde despontava um barba cerrada. Esbracejou contra todo aquele que se encontrava sob a roda do Sol.
        - Filhos da puta. - Sem se dar ao trabalho de ver as horas, irritado com o novo batimento na porta, rezingou para si. - Cadela de sorte.
         O espaço apertado do quartinho feito degredo, era um compartimento de arrumos do amplo apartamento onde ele se vira obrigado a dormir. De laços definitivos cortados com a esposa, não lhe restava outra solução para não ter que passar, como um foragido na sua própria cidade, as noites num hotel remediado. O divórcio vinha por aí, era verdade, mas esse facto era o que menos o preocupava. Tinha o coração acalorado pela sua nova paixão que o trazia nas nuvens. 


         


domingo, 29 de março de 2020

8. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

8.

      - Então aguarde no local enquanto procedemos às diligências necessárias - ordenou o 112. -Queira identificar-se. Nome completo...
      Joel Talina desligou abruptamente. Já falara demais, aludira ao Afeganistão, porra. Gato escondido... Todavia cumprira o ser dever de cidadão, respeitador dos mortos, e de todos os que precisam de auxílio. Pese embora o atarantamento, puxou as luvas bem acima dos pulsos, enfiou-se no carro que mantinha a porta aberta e a luzinha interior acesa. Esticou-se para o porta-luvas no outro lado. Abriu-o, retirou uma papelada sem interesse, um manual de instruções para uma panela-de- pressão laboratorial de 20 litros. Enfiou a mão, pressionou o fundo do porta-luvas que com um click se abriu. Tacteou com todo o cuidado, retirou uma embalagem de plástico com vários comprimidos azuis, sarapintados, e um outro com dinheiro.
      Na verdade  acreditava ser um grande pecado roubar um morto, ainda por cima seu amigo e confrade no negócio manhoso das anfetaminas.
       «Joel» avisava a mãe, alambazando-se com chocolates para alimentar a âmbria felina « os mortos têm memória.  Estão à nossa espera para dizer o que calaram em vivos.»
      Um odor adocicado alcançou-lhe o nariz. Virou-se para trás e deparou com uma caixa de bolos colocada no banco traseiro, o nome bem identificado: Pastelaria Zá Natário. Sempre de luvas, abriu a tampa e os seus olhos caíram sobre seis bolas-de-berlim. Não resistiu aos apelos de um estômago que tomara um escasso mata-bicho, tirou uma, espetou-a na boca, voltou a pôr tudo no seu lugar.
          Pensou em desligar o motor cujo ronronar lhe mexia com os nervos, mas logo desistiu da ideia, temoroso, como numa cisma sem explicação, que o falecido desse conta do que se estava a passar. Saiu do carro, deu uma última olhadela ao seu interior, deu uma larga dentada na bola-de-berlim, atafulhou a boca, virou-a em mastigações rápidas, enfiou aquilo tudo pela goela abaixo. Não queria que o amigo o apanhasse  a fazer o que não devia. Supersticioso, crescera ouvindo as histórias e crendices contadas pela mãe e das quais jamais de libertara.
        Com uma coragem desencantada nem ele sabia onde, dobrou-se para o falecido, afagou  a cara de anjo-bom do amigo.
       - Que vieste aqui fazer, Ruy Alberto? - Murmurou, condoído. - Porque raio saíste da casa?
       Sob a luz escassa  da  alvorada, pareceu-lhe que ele mexera os lábios. Os mortos querem dizer o que calaram em vivos especialmente quando sopram os ventos da desgraça. Era, não era?
      O Ruy Alberto quisera dizer-lhe qualquer cosa, uma última mensagem, um pedido, um adeus. Joel Talina rodou nos calcanhares, ajeitou no ombro a kalashninov. Correu o mais depressa que pôde, fugindo dos seus medos.

       Nessa madrugada  de 11 de Outubro de 2016, os ventos da desgraça tinham-se levantado, sôfregos, tal como previra a mãe de Joel Talina, a viúva Anunciação das Boas Incumbências. A morte também saíra ao caminho para os lados de Aguiar da Beira, levando consigo dois agentes da GNR e um casal de civis. Os quatro no mesmo local. Nessa mesma madrugada, em Viana do Castelo, calhara outro infortúnio - o homicídio violento de um jovem conhecido pelo seu desconforto perante o mundo dos humanos, poe ser um alquimista prodigioso em químicas sobrenaturais e viver fechado no seu castelo encantado lá para os lados da Serra d'Arga.

terça-feira, 24 de março de 2020

7 OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

7.

      O nevoeiro, o nevoeiro sem tréguas que mantinha  Viana do Castelo numa espécie de adormecimento de galinha choca. Joel Talina avançou dois passos, agachado, escudou-se atrás de uma árvore. Não era  apenas o Alfa Romeo Spider -sempre. sempre a trabalhar, o sacana -  que tinha agora razoavelmente à vista. Havia mais qualquer coisa. Com um estremeção que lhe fez contrair o estômago, descortinou um vulto deitado no chão enlameado, uma parte do corpo sob a frente do carro. O rosto estava virado para Joel Talina, de bruços, braços abertos.
          Desta vez, esquecendo-se da contagem protectora, nervoso pela excitação medrosa, tratou de chamar, a voz esganada:
           - Oh chefe! Tudo bem?
          A pergunta pareceu-lhe uma idiotice. Agora sim, não tinha dúvidas que o vulto era o de um homem da sua idade, talvez um pouco mais velho. Repetiu a pergunta inquiritiva, um pouco mais alto. E o vulto nada. Sempre agachado, numa corridinha  fulgurante, foi até à traseira da viatura. Atento, atentíssimo, voltou a pesquisar à sua volta. Silêncio e humidade, a brisa pelas folhas. Acendeu o foco da AK47. 
        Quando finalmente fez incidir a luz sobre o rosto da figura deitada, o que viu deixou-o horrorizado, o coração num tropel desenfreado, apesar de no Afeganistão já ter visto toda a merda que havia para ver.. Não era apenas a cabeça empapada de sangue que escorrera  para a lama do chão. Era, desgraçadamente, alguém que ele conhecia desde a escola primária na Meadela, o seu amigo íntimo, chegado e protegido Ruy Alberto. Sufocou um berro. Podia lá ser. O Ruy!! Apesar de tudo, este  mantinha a o rosto de anjo bom, bonito até, como se tivesse encontrado a serenidade que tanto buscara. Sem  sair de onde estava, procurou acalmar o remoinho de emoções que deflagrara dentro de si, Mais calmo, a sua primeira ideia foi a de se deslocar até ele, procurar tirar a limpo o que havia, se é que havia,  o que ocorrera. O seu grande amigo estava mais que morto, era bom de ver, assassinado, de cabeça aberta. Joel Talina não se mexeu. 
         Havia que ligar ao 112 e, numa informação rápida, comunicar o ocorrido. Mas cautelas e caldos de galinha são o que são e utilizar o seu telemóvel nem por sombras. Indo buscar uma coragem nem ele sabia onde, aproximou-se do cadáver, dobrou-se para o corpo, cruzou o sinal da cruz sobre o peito. pediu perdão ao morto. Com a mão tremente, sentindo a vergonha de estar a cometer um pecado hediondo, vasculhou os bolsos do casaco do Ruy Alberto. Encontrou o que queria, um smartphone da última geração.
          Virou-se de costas como se o morto o pudesse ouvir. Atarantado, de gestos precipitados, ligou para o 112. Eram exactamente 7h10. Estabelecida a ligação - sabia que o atendimento era feito por um agente no Comando da Polícia de Viana do Castelo - informou o que tinha a informar: um morto, cabeça esmagada, um charco de sangue, um automóvel, ainda a trabalhar. Local: monte de Santa Luzia, mais propriamente na clareira em frente às ruínas do Convento de S. Francisco.
           - Muito bem. Confirma então que estamos a 11 de Outubro, são 7h10 de um terça-feira.
            - Correcto,112.
            - Um morto, sexo masculino.
             - Correcto 112.
             - Há mais pessoas envolvidas?
             - Negativo, 112.
             - Tem a certeza que a vítima está falecida?
             - Correcto, 112. Não se mexe, não respira. Na guerra do Afeganistão, mortos foi o que mais vi. Por isso…
              Calou-se, subitamente atordoado pelo descuido informativo. Não se queria envolver, nadinha, ficar longe de arrelias e todo o tipo de chatices. Amaldiçoou  a tagaralice que o tinha traído, ele que até era de poucas falas.
           

segunda-feira, 23 de março de 2020

6. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

6. 

      Decidido a  rumar até ao ronronar persistente do motor, Joel Talina entrou no pinhal denso, pisando as folhas caídas no chão, um tapete que se formara com os primeiros dias de Outono. Não queria deixar pegadas, já que se houvesse um qualquer berbicacho, as botas seriam facilmente identificadas. Eram as que calçara no Afeganistão com uma sola específica do exército português. Pelo sim, pelo não e porque lhe cheirava a esturro, «filho, já sopram os ventos da desgraça», retirou a kalashnikov  do ombro, empunhou-a firme. Meteu um chumbo na câmara, travou a arma.
     Sempre a coberto da vegetação, foi subindo até alcançar as ruínas enigmáticas do convento de S- Francisco do Monte. Aninhou-se contra a parede em pedra grossa, contou até cinco, numa manobra de actuação segura à conta dos afegãos de trombas tapadas, sempre que faziam avanços pelas ruelas estreitas e arenosas dos arredores de Cabul.
      -Um....dois...
      Com todos os sentidos activados, esperou para ouvir vozes, murmúrios, gemidos.
      - Três…. quatro…
       Nada, mesmo nada. A brisa do vento pelos ramos das árvores e aquele roncar sem pausas do motor.
       - Cinco! Vamos lá, porra!
       Ergueu-se, caminhou agachado, rente ao muro em pedra antiga que delimitava o convento arruinado. O seu estado de alerta atingia o zénite de concentração. Colocava os pés no chão, sem pressas, sempre atento, sempre a pau com o que ouvisse de suspeito.  A respiração era um pandemónio dentro do peito, apesar da humidade tinha a garganta seca. Um pensamento sacana atravessou-se-lhe na cabeça. E se voltasse para trás? O raio da intuição que tão bem desenvolvera na terra dos afegãos de trombas cobertas era isso que o aconselhava: «Não te metas em merdas que podes sair delas todo cagado.»
      Mas sentia uma necessidade avassaladora de resgatar os seus medos, destruir de vez a inquietação que jamais o abandonava. Precisava de uma prova que certificasse a eliminação dos seus temores. Regressar era fácil, ir para a  coelhagem. Era fácil mas era uma cobardice.
        Sempre aninhado, hesitante, vou ou fico, porra, foi quando a uns vintes metros, topou o vulto da uma viatura envolta na penumbra lunar, estacionada na clareira que se abria frente à entrada do convento esventrado. O barulho do motor era agora perfeitamente audível, atingia a placidez das estrelas escondidas atrás das nuvens. 
         Mantendo-se no mesmo sítio, vencendo a penumbra, Joel conseguiu identificar o carro. Era um Alfa-Romeo Spider dos anos 70, uma jóia do automobilismo  italiano. Atónito, firmando melhor a vista, julgou reconhecer o carro do seu amigo e comparsa nas anfetaminas, Ruy Alberto. Não, era impossível ser o carro  dele apesar de saber que aquele modelo era o único na cidade. E arredores, já agora. Que fazia ali o Ruy Alberto, cujo síndrome de Asperger impedia de sair de casa, sempre às voltas com as magias laboratoriais?
      Cheirava a esturro? Cheirava e não era pouco.

domingo, 22 de março de 2020

5. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

5.   

       São 6h37 e Joel Talina está no sopé do monte de Santa Luzia, rodeado de vegetação silvestre, árvores despidas pelo Outono, o marulhar pacífico de um regato acordado pelas primeiras chuvadas após um Verão escasso de nuvens e humidade. Calçou as luvas, ajeitou a arma numa pausa para saber com que linhas havia de se coser. O motor s trabalhar, o sacana, com aquele ron-ron-ron de gata tal como as garinas em cio que nas discotecas lhe faziam olhinhos programados  para o cativarem, a quem ele, pacífico e sem enfado, se rendia.
       Se mantivesse o hábito de todas as caçadas ignorava o chamamento de gata, vindo la cima do convento se S. Francisco do Monte e desandava na direcção da Serra d'Arga, detendo a um quilómetro na casa isolada do seu amigo Ruy Alberto. 
         Este, com o seus olhos imensos, esparvoados, e uma pela branca, doentia, pouco afagada pela luz solar, vivia ali sozinho, como um anjo escondido que recusa enfrentar a matilha de adultos. Há muito que andava embrenhado em experiências laboratoriais, num ritual com qualquer coisa de sagrado, sintetizando uma anfetamina do paraíso, vendida e distribuída por três amigos confiáveis de há muitos anos. A ténue síndroma de Asperger que enleava o Ruy Alberto e a fortuna do pai, tinham elevado os seus conhecimentos a manipulações químicas de um nível impensável para um amador e que tocava o mistério.
        Bem vistas as coisas, a surtida à coelhagem ia dar em águas de bacalhau até porque não trazia o general Cabul. Ouvindo o ronronar manso do motor, persistente, inquebrantável, decidiu-se a não resistir-lhe. Ia descobrir o que se passava, para ele tão estranho, esquisito mesmo. Se no Afeganistão usara de todas as cautelas - aquela maltosa ocultava perigosos enigmas sob os turbantes e fraldões talares - também no Afeganistão aprendera a revistar, obedecendo a todas as cautelas e mais alguma,  todos os cantos e cantinhos onde se podiam albergar suspeitos ou munições de guerra. Até as crianças, perigosas na sua aparente ingenuidade. Fazia-o com um misto de curiosidade e desafio, excitado por uma adrenalina brava  que lhe fazia esquecer o medo e que hoje, vá lá saber-se porquê, tinha saudades.
            Desviou-se do trilho mais que batido. Lentamente, tendo cuidado de ver onde punha os pés, subiu na direcção do apelo: o motor a chamá-lo. De vez em quando detinha-se, alerta como no Afeganistão, atento a um som, um ruído, ao rastejar de um bicho. Talvez raposas e javalis, uma bicheza que durante o Verão fora forçada a aproximar-se do casario das freguesias à volta de Viana do Castelo..
          A excitação alterara-lhe os batimentos do coração e a tranquilidade da respiração. Por outro lado derrotara-lhe os velhos medos que jamais o abandonavam.
             - Raios partam! Vamos lá ver o que se passa. - Animou-se para dentro de si mesmo, encorajando-se para não cair no pântano do medo. - Vamos lá, porra! Vamos lá.

sexta-feira, 20 de março de 2020

4 . OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO


4.
      A  hora e o tempo é que eram de estranhar. Ainda faltava um bocado para as sete, a madrugada mal se anunciava atrás da serra d'Arga. E o raio de um motor, ron-ron-ron,ron, que não saía da cepa torta. Com aquela intuição do perigo que fora obrigado a desenvolver na comissão de guerra no Afeganistão, pensou que o melhor era ir à vidinha cinegética já que para isso não se atirara para cima da cama, após uma horas largas de serviço no hospital. O vício quase demente da caça era como uma doença parasita que exigia ser alimentada. Não tinha outros vícios, é verdade. Nem tabaco, nem tainadas, menos ainda convívios frequentes com a malta da mesma idade, muitos seus colegas de escola. Miúdas eram as de ocasião, encontradas em bares e discotecas, onde ele poucas vezes punha os butes. Elas não se faziam de púdicas perante um jovem de trinta e poucos anos, cabeça rapada e uns olhos verdes, luminosos, insuperáveis. Joel Talina derrotava-as sem que tivesse necessidade de abrir a boca. Sisudo, próximo da dureza de trato, deixava que elas o enleassem, absorto na sua nostalgia.
         O físico alentado escondia um coração trémulo, ligeiramente assustadiço, um coisa que nem era de homem nem nada que se parecesse. Crescera sob a asa doentia de uma mãe sem deixar lugar para o risco e para o mistério. Joel era o seu filho único, seu eleito, sua razão de vida. Amava-o com uma voracidade de provocação.
      E se se tinha enfiado na guerra no Afeganistão, uma alhada que ainda hoje lhe provocava pesadelos duros, fora porque a mãe, mais uma vez, nessa altura, socorrera-se das suas intuições de maga:
        « Filho meu, Joelinho, levantaram-se os ventos da desgraça, tão fortes e tão negros como nunca vi.»
        Desandara no primeiro contingente para a trapalhada do Afeganistão porque uns dias depois da premonição da mãe, chegaram-lhe as orelhas ums zunzuns que tinam a ver com a investigação da Judiciária na zona de Viana do Castelo. Andavam no encalço da rede de distribuição de anfetaminas, de que ele fazia parte, anfetaminas essas fabricadas pelo seu amigo Ruy  Alberto. O que foi o que não foi, viu-se que tinha sido rebate falso. 
     O diabo era o motor a trabalhar, quase de certeza nas ruinas do convento de S. Francisco do Monte. Era como uma sereia, sim uma sereia, que o chamava. Ele bem não queria ir. Mas tinha tanta raiva atrasada por se saber  fracote de ânimo que tratou de obedecer ao  chamamento.


   

terça-feira, 17 de março de 2020

3. OS CRIMES DE VIANA DO CASTELO

3.


         Atraído pelo ronronar misterioso de um carro, vindo lá de cima, da serra, numa madrugada escura, Joel Talina fez um pequeno desvio como sempre, para evitar o carvalho do Enforcado, uma árvore carregada de anos, maldita, temível, que crescera encostada a uma formação granítica conhecida como a Barriga do Diabo. Não era para menos. na árvore enforcara-se o pai, por exemplo. Já passara por ali centenas de vezes, desde a sua infância silvestre, mas era incapaz de se habituar à sua  visão. Pior ainda era o que se dizia da puta da árvore: das suas raízes libertavam-se vozes sumidas, como que vindas do além túmulo.
          Joel Talina estava longe de ser corajoso. E se fazia aquela caminhada para caçar coelhos, sem medo e a horas carregadas de escuridão era porque estava no seu ambiente, sem nada de invulgar. Aparentemente.
       Mas o problema era o motor a trabalhar, soturno, sem uma pausa, a moer-lhe o juizinho. Era por isso um transtorno desagradável na segurança dos seus hábitos. Cagarolas, receou o imprevisível recordando o aviso da mãe, olha, filho, põe-te fino que acordaram os ventos da desgraça.
       A tiracolo, presa pela bandoleira, a sua pressão-de-ar quitada, quitada e de que maneira. Com a mãozinha encoberta de um armeiro, reforçara a câmara de explosão da arma, tornando uma espécie de AK47. Ganhou um alcance de tiro seguro de uns cem metros, com chumbos 4.5. Com esta jigajoga fraudulenta o chuço passara a ser perigoso, mortal. Anexara por cima da mira, uma lâmpada duas lâmpadas led  que lhe permitia, mesmo na escuridão mais densa, iluminar  espaço à sua frente onde devia estar o alvo e que o levava a desandar de casa tão - coelhos.
       Na caça, o chumbada apesar do calibre, da força do tiro e da sua pontaria, eram suficientes para abater o bicho logo ali, esperneando pela aflição da agonia. Até se esvair em sangue, os vasos do corpo secos como valas no Verão. Mas se o tiro apanha a vítima de raspão, desaparecia por entre ervas e silvas, a agonizar, sabia-se lá onde e por quanto tempo. Para essa eventualidade dispunha da colaboração do seu ajudante de campo, o general Cabul, um braco alemão de alto lá com ele, e que lhe custara os olhos da cara. Desta vez não levava o cão. Desde o dia anterior o perro estava a desfazer-se numa caganeira mortal, amodorrado, as orelhas murchas. O odor era o de uma morte anunciada.
       Foi avançando. Lá mais à frente tinha a bifurcação conhecida. Uma para a serra d'Arga. A outra para Santa Luzia. Tinha que se decidir. Ou sim ou sopas. O barulho do motor, incomodo, de mau agoiro é que intrigava o Joel Talina. E porque entretanto se encontrava mais perto, foi fácil perceber que o carro ronronante não devia estar muito longe das ruinas enigmáticas do convento de S. Francisco do Monte. Dizia-se que o local abandonado era habitado por ogres, cocas e bichos-papão. também ali se refugiavam casalinhos de jovens  apaixonados, amantes secretos, ou até um pessoal para tomas suicidas de crack. 
       O caminho para as ruínas não tinha passagem para mais lado nenhum. Quem lá ia, levava uma fisgada.